Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

6 de setembro de 2004

300=5.000

Cá para mim, 300 ou 5.000 é o mesmo. Quando se fala de vítimas de um atentado terrorista, é o mesmo. Deve ser só para mim. Ou a diferença entre a escola de Beslan e o World Trade Center está no maior monte de aço, tijolos e vidro? PUÁ!

Nova Iorque teve o mundo a sofrer por ela, solidário. O drama das famílias foi seguido com a lágrima ao canto do olho meses a fio, devidamente embalado pelas televisões. Madrid assistiu a dose semelhante. Mas Beslan passou ao lado das emoções gerais. Apesar de a terem lá morrido centenas de crianças. Nem o facto de serem crianças amoleceu os queridos e tão bem manipulados coraçõezinhos ocidentais.

Há uma escala humana, afinal. É mensurável a partir das reacções comunitárias ao drama da morte pela via da guerra e do terror. Se um novaiorquino vale 1, um madrileno vale 0,8. Um israelita vale 0,7 e um palestiano 0,6. Um soldado americano vale 0,5. Um cidadão iraquiano vale 0,4. Uma criança ossetiana vale 0,3. Quase no fundo da escala, até ver, um osstiano adulto, homem ou mulher, na plena posse da sua maturidade vale 0,2, praticamente o mesmo que os soldados europeus, e No fundo estão os soldados de outras nacionalidades que morrem nas várias guerra em curso em todo o Mundo. Omiti os africanos, como é evidente. Menos de uma dezena de africanos mortos nem conta no totobola da lágrima. Um povo inteiro vale, quando muito, um protesto dos grupos mais atentos aos direitos humanos. Na mesma escala, algo como 0,09.

A sociedade ocidental continua — toda ela, da esquerda à direita, embora por motivos diferentes — a olhar para a guerra e o terrorismo de forma diferente consoante o tipo de vítimas. Enoja-me.

Nova Iorque, Iraque, Palestina/Israel, Madrid, Rússia, Ossétia do Norte. Judeus, árabes, cristãos, ortodoxos, ateus. Para cada peso uma medida, para cada confronto uma resposta moralista. A hipocrisia está mais enraizada na nossa doente cultura do que eu supunha.