Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de setembro de 2006

9 11 em Portugal, cinco anos depois

Do combate de senadores (ainda que, digamos, um senior e um junior) previsto para dentro de alguns minutos na RTP 1, não espero mais que o combate de enfadonhas banalidades repetidas ao longo destes cinco anos, tão ritualista no que serão obrigados a simbolizar Pacheco Pereira (pró-americano convicto e que vê em Bush o que mais ninguém vê em Bush) e Mário Soares (o homem que defende a via diplomática, o diálogo com os terroristas). Cumpre-se como os outros rituais televisivos neste dia. Só falta mesmo ser feriado nacional — ou seja, falta pouco. (E, aqui só para nós, fazia mais sentido que alguns dos feriados que temos, mais não fosse, pela proximidade. Eu pelo menos vejo assim.)

Na evocação do acto terrorista que vitimou mais de 3.000 pessoas na destruição do World Trade Center, no coração de Nova Iorque (frase muito depurada para evitar as conotações automáticas com que a cada vez mais maniqueísta blogosfera se habituou a rotular todos, na sua sanha interpretativa), os meios “tradicionais” cumpriram bem os seus papéis. Da lágrima fácil à evocação difícil à história contada com bem educada contenção, houve tempo para o registo factual e para a recordação familiar.

Destaco com grandes parangonas AS PALAVRAS NOTÁVEIS DE ADRIANO MOREIRA na SIC Notícias, com Mário Crespo à altura. Ao contrário dos reféns das suas agendas políticas ou pessoais, Adriano Moreira pode pensar em liberdade. E falar sem preocupações. O professor sabe disto e deu uma lição. Deviam ouvi-lo.

Já a leitura dos blogs não me cativou particularmente. O costume: malditos os neo-comunistóides e a escumalha esquerdista que comandita os jornais, segundo os quais houve “acontecimentos” e não “terrorismo”, rasgados elogios aos brilhantes analistas que fazem copy-past uns dos outros e da repetição acéfala e irracional. Destaco apenas um postjogo de lágrimas — por reflectir parcialmente o que penso e por ser um post corajoso (João Gonçalves tem esse saudável hábito de fugir do lugar comum). Reproduzo dois trechos do portugal dos pequeninos:

Quando Clinton deixou a Casa Branca, não podia imaginar – nem nós- o que ia representar W. Bush para o mundo. O “ocidente”, por causa das borradas dele e dos seus aliados, com Blair à cabeça, vive permanentemente no pânico de ser atacado e viu o que de melhor constitui o seu património – as liberdades, os direitos e as garantias – substituído pela paranóia securitária mais absurda. Enquanto andaram – e andam – entretidos com o Iraque, houve Madrid, Londres, a Indonésia e outros. Enquanto andaram – e andam – entretidos com o Iraque, o Irão tratou da sua vidinha.

Mais do que o dia, vale a pena atentar nas consequências desse dia. E tentar perceber, no jogo de enganos e de lágrimas de crocodilo que é a “vida internacional”, o que é que aconteceu, sem demagogias melodramáticas e inúteis.

Ah, e quanto às referências ao “outro” 9 11, o golpe de Estado de Pinochet em 1973 que derramou sangue em elevadas proporções durante e depois, só mesmo as da esquerda e sobretudo a esquerda com memória directa. Provando que os actos dos homens, por mais sangrentos que sejam, acabam todos em efeméride. É a forma como a olhamos, como reflectimos e o que dela extraímos que nos pode diferenciar dos papa-feriados.