Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

14 de junho de 2010

A vuvuzela mata a participação do público

A vuvuzela mata a participação do público. Adeus cânticos nas bancadas. Adeus ola. Adeus palmas a incentivar os guerreiros e assobios a punir as más jogadas. Tudo isso acabou neste Campeonato do Mundo.

Com a vuvuzela, o público presencial do futebol é reduzido a um som monocórdico. Os cambiantes sonoros de um estádio de futebol em plena função são eliminados para darem lugar a um ruído de fundo uniforme, descrito como o zumbido de uma colmeia de vespas.

Não há públicos no Mundial africano. Somente esse enxame único.

Não encontro paralelo, na história do desporto, de uma “tradição” local impôr uma tal amputação da diversidade cultural.

Joseph Blatter mostra as vistas curtas e pragmáticas da política expansionista da FIFA. A preocupação principal é satisfazer a “cultura” do continente que acolhe a prova. Tal justifica a não-proibição do uso da corneta que incomoda jogadores, e treinadores, que condena à morte a participação do público no estádio, que torna a assistência pela televisão numa má experiência, ou no mínimo numa redução do esplendor audiovisual para uma mera janela video sobre o jogo.

Os jornalistas têm hesitado. Uns aderiram à vuvuzela, considerando-a como um fenómeno popular que, enquanto tal, deve ser noticiado acriticamente — até “entusiasticamente”, no habitual alinhamento com a “maioria” que, pensam empiricamente, “vende mais”. Outros lá vão fazendo eco das preocupações e alertas. Outros ainda despertam serodiamente para um problema que se adivinhava ainda antes dos jogos começarem.

Se canaliza alguma energia, como quer fazer crer o anúncio que acaba de passar à minha frente, a vuvuzela congrega energia negativa. Reducionista, castradora, desesperante.