Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

13 de abril de 2005

A chave da mudança

«É nos empresários que está a chave da mudança». A frase é de António Borges. Um homem enigmático que se começa a revelar.

Na sua estratégia de take-over ideológico de um partido de poder (como se lhe referiu João Cravinho em crónica num diário de segunda-feira), Borges tenta aliciar as hostes sensíveis às palavras liberalismo, capitalismo e economia de mercado e estende a mão, magnânimo, aos “empresários”, uma espécie de raça super-atlética e financeira previdente, capaz de mudar o país (para melhor, subentende-se).

Mas a frase é uma falácia. A mudança não esteve, não está e é pouco crível que venha a estar na mão dos empresários.

Os empresários cumprem úteis funções na sociedade. São eles quem aproveita as ideias e as transforma em serviços e produtos adequados ao mercado. São eles quem gere empresas e, aqui e ali, institutos e organismos públicos. Têm um treino útil, aguçado pela adrenalina do lucro: sabem reduzir a gordura (despesas) de um organismo (empresa) e procurar as metas (produção) adequadas. Um empresário é tanto melhor sucedido quanto eficaz for a cortar no supérfluo (despesa) para apurar o essencial (lucro). Nesse sentido são de extrema utilidade às organizações, privadas ou públicas.

Raramente um empresário muda alguma coisa — isto tomando a palavra mudança no contexto em que António Borges a empregou: o contexto da inovação, da “modernização” ou “modernizações” que parecem indispensáveis à economia portuguesa.

Os empresários inovam no seu métier: na eficácia organizativa do aparelho e na sua intervenção sobre o mercado. E mesmo aí só se dão ao luxo de aplicar a inovação (a chave da mudança) quando seja evidente que tal vai acarretar lucro. Ao contrário do que se faz crer, a “capacidade de arriscar” dos empresário é bastante limitada: o risco é sempre calculado. O investimento é feito apenas quando lucro se adivinha, pressente ou é óbvio. Alguns gostam de se projectar no espelho público como empresários “de risco” e o espelho público sorri e pisca-lhes o olho: não vem mal ao mundo dessa inocente vaidade.

Salvo raríssimas excepções (já lá iremos) não são os empresários que rompem conceitos. Não é das empresas que saltam as inovações. Não são os empresários que fazem a economia: eles guiam a respectiva locomotiva.

A inovação tecnológica raramente está associada aos empresários. A mudança de paradigma (agricultura -> industrialização -> serviços, para usar simplesmente Toffler) não esteve nunca associada aos empresários.

Quem faz a economia são os grupos sociais. Nos últimos séculos consubstanciados no Estado, ou Nação. É o Estado o motor, a locomotiva, da mudança. É a política, enquanto disciplina reguladora do social, que estipula os carris da economia. São a necessidades do Estado que abrem e fecham os mercados. Não são os empresários.

A investigação, terreno para a mudança, é responsabilidade da res publica. A educação, adubo da mudança, é comandada pelo Estado.

No século passado todas as grandes mudanças (e médias e pequenas também, salvo raríssimas excepções associadas a mercados) sairam das necessidades dos Estados — com as guerras, uma necessidade exclusiva dos Estados, a dirigirem as mudanças. Aprimorar a utensilagem da guerra para obter uma vantagem no campo de batalha, num primeiro degrau, e lidar com a devastação subsequente, num segundo degrau, foram os eixos notórios da economia do século XX. Os empresários foram chamados, claro está, a gerir os projectos. Depois, adaptaram a panóplia extrema de novidades no plano técnico e social e levaram-nas ao público — fazendo fortuna com isso, como é próprio da economia de mercado e se espera que façam.

A inovação e a mudança são requeridas pelos Estados. Se dependessem do empresários e do aparelho privado, a inovação produzia-se a conta-gotas (e darwinisticamente teríamos em poucas dezenas de anos um mundo de raras espécies) e a mudança vinha apenas pelo seguro do lucro fácil.

Ao longo da evolução da economia de mercado as falhas evidentes dos Estados (maus gestores porque o seu devir é outro) puxaram as empresas para parcerias na investigação, conferindo-lhes um dinamismo de mudança que inicialmente não tinham. Hoje, é comum as empresas despenderem algum lucro em prol da mudança, reconhecido que é o seu papel fundamental para evitar um marasmo que só prejudicaria o capitalismo. As verbas adregadas à mudança são em geral uma parcela ínfima do lucro. Ínfima quando comparada com o investimento do Estado, o grande agente da mudança.

Em Portugal, porém, as empresas são muito menos propensas ao investimento em I&D; deixam-no quase em absoluto ao Estado, que arca com 99% da despesa nacional em futuros. Não se vê como possam ser “chaves da mudança” agentes que historicamente se têm, neste país, furtado às responsabilidades na matéria.

Enquanto nos EUA (e de uma forma geral no mundo anglo-saxónico) existe uma troca de exercícios entre pólos de I&D e empresas, em Portugal tal troca é pouco menos que uma excepção a confirmar a regra: não fora o Estado português e não havia chaves de mudança! A inépcia dos empresários portugueses é fácil de medir: está na proporção directa dos subsídios com que o Estado (com a ajuda dos Estados europeus) caridosamente sustém sectores inteiros de actividade.

Um Estado não se lidera como uma mercearia, ou uma multinacional. Um Estado não se funda para ganhar dinheiro. Um Estado não se gere, dirige-se.

Finalmente: não se vê, sequer, como podem os empresários mudar a política; as experiências de empresários a dirigir nações são poucas e nenhuma inspira confiança por aí além. A experiência portuguesa dos anos 80 foi um reconhecido flop para o empresário em causa, para país e sobretudo para o partido que António Borges agora quis tomar de assalto.

Nota 1: o “empresário” agente de mudança do século XIX, de Edison a Ford, é uma imagem romântica hoje desbotada no album de família dos empresários. Até a foto de Howard Hughes descolorou.

Nota 2: a indústria dos telemóveis tem sido desenvolvida por iniciativa empresarial, configurando-se em certa medida como uma das raras excepções de uma indústria senão nascida de raíz, pelo menos impulsionada praticamente sem uma razão de Estado.

Nota 3: as indústrias promitentes do presente e futuro, imediato ou longínquo, são todas de origem pública. Da internet às telecomunicações, das energias renováveis ao ambiente, os Estados criaram as locomotivas e os empresários vão guiá-las. Acresce que nestas quatro citadas os empresários apresentaram as suas habituais credenciais, atrasando e algumas vezes torpedeando a inovação para proteger os seus negócios putativamente ameaçados pelo respectivo desenvolvimento sadio.