Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

9 de maio de 2006

A civilização (um contributo antigo revisitado)

Qualquer exame, por sumário que seja, das relações existentes entre colonialismo, por um lado, e progresso da civilização, por outro, sugere inevitavelmente que se tente apreciar, mais uma vez, esse fenómeno profundamente obscuro a que se dá correntemente o nome de Civilização.

O conceito de colonialismo, é habitualmente usado para descrever todas as formas de uso e apropriação compulsiva dos povos do terceiro mundo, por parte dos países ditos desenvolvidos, com um objectivo económico definido.

Mas poderia proveitosamente generalizar-se esse conceito de modo a descrever também todas as formas de uso e apropriação compulsiva do indivíduo, através dos inúmeros mecanismos criados com o objectivo expresso de o domesticar, de o assimilar à chamada ideologia dominante — seja ela qual for; a ideologia da tribo, da seita ou do estado; a ideologia da família, do partido ou da igreja; a ideologia do grupo social ou do indivíduo de quem materialmente se dependa — [...] e um sem número de outros meios, de outros instrumentos, de outros artifícios, dos mais sofisticados aos mais grosseiros, usados com o mesmo propósito, com o mesmo objectivo essencial de colonizar o indígena, seja ele quem for.

Poderia dizer-se que a história da nossa Civilização é, basicamente e num sentido lato, a história de todas as variantes e formas possíveis de colonialismo.”

(João de Sousa Monteiro em Tire a mãe da boca, I volume, Assírio e Alvim, 1978, itálicos e negritos conforme o original.)

A imposição do modelo económico da sociedade mercantilista (invertidamente chamada “de consumo”) não era, à altura de O Homem no Tempo, de João David Nunes e Sousa Monteiro para a RDP, uma preocupação para um Portugal acabado de sair do fundo do poço. Hoje tudo mudou e a colonização sabe-nos mal na boca.

E sabe a preto. A sujo. A petróleo. Misturado com o sangue das mais recentes vítimas da infindável guerra entre colonizadores e colonizados, a que por estes tempos se chama de terrorismo e se trapaceia com questões de Fé.

Um traço distintivo da civilização, esta e as outras, é a cegueira.

Com preservativo nas palavras ou sem ele, a verdade é sempre a mesma: há colonizadores e colonizados e a História só muda quando os primeiros levam longe demais o abuso e os colonizados e mal pagos armam uma caldeirada com o que houver à mão. Grande Problema Actual: por paus os indígenas brandem tão-só os recursos naturais do planeta. Tivessem os dirigentes das últimas três décadas dado ouvidos aos verdadeiros economistas em vez da palhaçada liberal que culminou no assalto do maior poder por um réprobo como George W. Bush, e o mundo hoje era um lugar mais respirável. Para todos.