Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de maio de 2005

A esperteza possível de Marques Mendes

Sempre atentos e vigilantes como é seu timbre, os ditos opinion-makers da Imprensa lisboeta têm nos últimos dias elogiado a acção do líder do PSD, Marques Mendes, na condução do processo das autárquicas. Mendes é apresentado por tais teclados como um herói não só do seu partido como da política nacional.

Bem espremido o assunto, MM recusou a entrada nas listas de figuras populistas como Valentim Loureiro ou Isaltino Morais, que para mais estão ou estiveram a braços com a Justiça e seus comportamentos (no caso de Isaltino) terão ficado aquém do esperado num político, quiçá num cidadão! A ilustre classe opinante, que como toda a gente — à excepção de Pacheco Pereira — sabe é na sua maioria de Direita, releva assim a coragem do líder do PSD e o seu inestimável contributo para a moralização da classe política aos olhos da populaça, uma verdadeira limpeza no aparelho. Ortodontias à parte, se ocorrer ao cidadão menos sensível às pequenas — embora decerto significativas — minundências dos dia-a-dias partidários pensar dois minutos seguidos no caso, a tese do heroísmo mendista não se aguenta nem 30 segundos. A tese ad hominem afigura-se, sim, como uma campanha (orquestrada ou não, opto pela última) de construção acelerada de uma imagem forte, de rigor e competência, que inculque nos cidadãos em geral a ideia da eficácia de Marques Mendes enquanto político moderno e preocupado com a dignificação da política portuguesa. Coisa que ele não é nem está. O que ele é e está, é um típico quadro do PSD que, perante um cenário de crise interna, está a robustecer a sua liderança pondo em sentido os tradicionais baronetes do partido.

Comecemos por aqui. Mesmo admitindo benevolamente que tamanho altruísmo tenha finalmente arribado, em jeito de epifania, à cabeça de um dos mais antigos políticos nacionais, que ocupou os mais diversos cargos partidários e governamentais sem nunca ter mostrado queda para homem das limpezas, as escolhas de MM não aquecem nem arrefecem por aí além em matéria de moralização. Ainda que pessoalmente possa rejubilar por ver Morais dançar, porque não nutro pelo homem grandes simpatias e acho que borrou a pintura por completo no caso “suiço” merecendo o “castigo”, não vejo onde está a coragem para o afastar, nem vislumbro na situação uma “política de fundo” com o objectivo de dignificar o exercício de cargos políticos. É o mínimo dos mínimos que se pode pedir a um líder partidário e mal vai a política quando um político é elogiado por cumprir os mínimos olímpicos. A menos, claro, que haja uma estratégia no elogio.

Responda o leitor, depois de reflectir um instante, à pergunta da praxe: caso tivesse apanhado o Governo socialista de maioria absoluta a meio dos presumíveis quatro anos de mandato, em vez de no início, Mendes preocupar-se-ia com a deontologia dos seus ganhadores de eleições regionais?

Pois. Como fica demonstrado, o acto heróico e a coragem não passam da esperteza possível. Com a qual nos devemos congratular, ainda assim, pois há mérito em aproveitar cada circunstância a nosso favor — e Mendes aproveitou para se impôr a alguns baronetes episodicamente na mó de baixo para reforçar a sua fraca imagem de líder.

Por outro lado, é duvidoso, eu diria improvável, que sejam rentáveis para o PSD e suas bases os afastamentos de Loureiro e Morais e o significado político do gesto. O argumento da “dignificação” só colhe nas cabeças exteriores ao partido. Dentro deste — e excluindo as elites, que adoram mostrar-se preocupadas com os aspectos deontológicos e perorar-nos os ouvidos até à náusea com A Virtude — só há um objectivo: vencer!; só há uma preocupação: voltar o mais depressa possível ao poder.

Mendes corre um risco em afrontar assim o aparelho. É certo que é um risco calculado e diminuído por força do momento (ou era agora, no início dos quatro anos de deserto, ou nunca era).

Ao contrário dos restantes partidos com lugar no Parlamento, o PSD é o que mais depende das “figuras”, do seu prestígio e da admiração que suscitam nos putativos eleitores. No CDS, no PS, no PCP e até mesmo no BE vota-se tanto por convicção nos respectivos ideários como nas pessoas que o corporizam (ou não). Estes são partidos com cartilha ideológica de fundo, um mostruário de convicções capazes de conquistar ou repelir eleitores. Pode o mostruário ser apresentado mais dourado ou menos dourado conforme o líder do momento e o próprio momento, mas ele está lá. No PSD, não. No PSD vota-se menos por convicção, vota-se mais pelo prestígio do líder. O ideário social-democrata é já de si bastante vago para suscitar emoções e no PSD ainda por cima mal se dá por ele, o partido sempre desprezou a sua cartilha. O PSD discute pessoas e no PSD discutem-se as pessoas: fizeram bem ou mal, ganharam ou perderam. Nunca se discutem nem comparam os pormenores programáticos de vitórias e derrotas.

Historicamente o PSD deve quase tudo às figuras — nacionais e regionais — e quase nada aos seus programas.

Gostemos ou não das acções de Isaltino Morais, Valentim Loureiro, Isabel Damasceno ou João Jardim, são as suas figuras que ganham as eleições regionais e nas nacionais controlam os votos nas respectivas paróquias. Mais que máquinas ganhadoras, ao longo de décadas foram eles que cimentaram o peso do partido no eleitorado.

Mais que a lutar heroicamente pela dignificação dos cargos políticos no seu partido, matéria duvidosa, Marques Mendes está a aplanar o caminho interno para reduzir o impacto que previsíveis derrotas autárquicas pudessem vir a ter na sua liderança. Em suma, está a precaver-se para uma liderança que se prevê dificultada pela míngua de poder e de vitórias, o que no seu partido tem conduzido inevitavelmente à queda do líder. Mendes não quer ser outro Fernando Nogueira e muito menos outro Rebelo de Sousa.

Ao país em geral e aos comentaristas políticos em particular dará jeito ver a coisa pelo lado da dignificação. Ao eleitorado do PSD, porém, não dá jeito nenhum. Sem Loureiros, Morais e Jardins, acabam as alegrais locais que ainda iam afagando a alma. Do ponto de vista deles, o futuro do PSD continua negro apesar do “cavaleiro branco” que os comanda, segundo a Imprensa.