Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

19 de fevereiro de 2006

A excelência (ou vou ali já venho)

A EXCELÊNCIA (OU VOU ALI JÁ VENHO). Li que o prémio BES Photo «nasceu de uma parceria entre o BES e o CCB com o objectivo de promover a excelência da arte fotográfica criada por portugueses». Fui ver os finalistas ao CCB. Saí com uma dúvida profunda: ou a cena é absoluto bullshit, ou o júri é composto por autistas.

Talvez haja uma terceira hipótese, admito: os dois jurís, o de selecção e o de premiação, não sendo autistas, serão ratos de exposição, daqueles que não saem das galerias do CCB há anos, não tendo portanto a mais pálida ideia do que andam por aí a fazer fotógrafos de todos os tempos, idades, modos e expressões. Ratos de exposição habituados a “artistas” e portanto desconhecedores de fotógrafos.

No CCB só estão expostos trabalhos dos quatro convidados: António Júlio Duarte, José Luís Neto, José Maçãs de Carvalho e Paulo Catrica. Vamos a eles.

O vencedor, José Luís Neto, tem uma interessante abordagem da imagem: numa inspiração impressionista capta em preto e branco pormenores do rosto humano, repetindo-os em diversos ângulos. Ao ver o primeiro set comentei: este rapaz não gosta de fotografar. Depois passei ao segundo set e passei é a palavra. Passei muito rapidamente, comentando: este rapaz não gosta de nos mostrar o seu trabalho. (Razão eventual para o juri o ter distinguido? Especulo.) Uma convicção tive: dos quatro finalistas, o vencedor é o que tem a menor relação com a fotografia — estejamos a falar de técnica, de reportagem, de manipulação do real, de provocação, de experimentalismo, até mesmo de arte em qualquer dos sentidos que possa ter a arte fotográfica.

Neto pode (vir a) ser um bom artista plástico; nunca será um grande fotógrafo. Erro de casting, sem dúvida.

Paulo Catrica? Numa palavra: vulgar. Em mais palavras: a escolha irrepreensível da objectiva e da sensibilidade são atributos comuns a algumas centenas de fotógrafos que expõem, pelo que a eleição de Catrica para a final não veio do domínio técnico. Os enquadramentos são de uma vulgaridade rectilínea impressionante: qualquer fotógrafo de casamentos fará o mesmo. No caso do edifício do Expresso, nem é preciso enquadrar: a arquitectura é tão boa que dispare-se para onde se disparar o resultado será sempre bom. Especulo: só havia quatro concorrentes a concurso? Enfim, temos mais um fotógrafo para as revistas das empresas, muito nice and clean.

José Maçãs de Carvalho é interessante. Irreverente. A projecção video (as imagens são as palavras dos analfabetos) vale a deslocação ao CCB e os € 3,5 do bilhete (preço para não-clientes do BES, algo de que desisti há anos, para grande conforto meu e das minhas contas bancárias). A ideia do projecto Democracia e Imagem é no mínimo curiosa: cada visitante da exposição é convidado a levar uma fotografia emoldurada, estão centenas dentro de caixotes de papelão. Ah, já agora (e porque é de um prémio de fotografia que supostamente se trata): as fotos dele são de qualidade honesta, ainda que variadas, parecendo que jogou a mão ao caixote e foi o que calhou.

António Júlio Duarte seria o vencedor se eu estivesse no juri. É o melhor fotógrafo dos três (desculpem-me mas não consigo ver o artista plástico Luis Neto como um fotógrafo, por muito que queira ser bem educado). Não é bem o meu gosto ou género, mas vê-se à distância que domina a máquina, sabe de onde vem a luz, experimenta ângulos mas sobretudo capta a vida e as pessoas e a força delas — ainda que nas versões violentas, pelo menos nas fotos expostas. Pressente-se um grande fotógrafo, uma carreira, vê-se uma margem de progressão muito animadora.

A segunda edição do BES Photo no Centro Cultural de Belém pretende promover a fotografia. Ninguém diria. Depois de ver a exposição fiquei absolutamente convicto do contrário: o BES Photo pretende despromover a fotografia. Porquê, escapa-me.