Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

10 de setembro de 2007

A Internet está a matar os profissionais

A leitura de The cult of the amateur está a perturbar algumas cabeças. A Internet está a matar os profissionais, é mais ou menos a ideia retida.

O livro de Andrew Keen é na realidade uma bela porcaria. Parte de premissas falsas, que mistura com algumas verdadeiras lapalissadas, e a seguir tudo faz para confirmar o preconceito de partida para o livro.

Aqui, tiro-lhe o chapéu. Keen identificou correctamente um nicho de mercado por explorar, dizer mal de um sistema que vive muito do auto-elogio e está cegamente apaixonado por si próprio, que à superfície parece ter pouca auto-crítica (sublinho: à superfície).

O que lamento é a abordagem ao nicho. Ken não conseguiu melhor que recorrer a uma mistificação: o livro parte do lamentável e inútil princípio de que um canudo é SEMPRE melhor que canudo nenhum e um detentor de canudo é SEMPRE um ser superior a todos os não-detentores de canudo, apresentados como um bando de macacos imbecis e aparentemente incapazes de apertar os atacadores sozinhos. Não estou a brincar com as palavras, leiam-no, Keen diz isto em cada frase.

Keen oblitera, simplesmente, o pequeno exército de especialistas nas mais diversas áreas — muitos dos quais com graus académicos, — que acorreu à publicação digital tirando partido da democratização dos meios de produção de comunicação de massas (é isto que a blogosfera é, para o bem como para o mal).

E efabula a posição dos media enquanto garantes da verdade e da confiança: para não ir mais longe, basta passar os olhos pela programação das televisões de todo o mundo desde a Segunda Guerra Mundial, da alienação pelo mau gosto nos EUA ai papel como arma de propaganda na ex-União Soviética, para destruir esse mito em que o livro assenta, o da superioridade “natural” dos media, todos iguais.

Adiante, que quero é fazer uma citação.

Quando anuncia um corte de 750 milhões de dólares na produção de noticiário e ficção, a NBC planeia também investir 150 milhões em novos projectos digitais e oferta Internet como sites específicos para banda larga, blogues de actores e “webisodes” consumíveis apenas na Internet, mais baratos de produzir e usando actores desconhecidos em vez das actuais estrelas“.

Como se vê, os profissionais são uma pontualidade, uma casualidade — trabalhadores contratados quando há necessidade e despedidos quando deixa de haver necessidade. Ou antes, como não se vê: a citação é de… The cult of the amateur, tradução minha, segundo parágrafo da página 125 da primeira edição hardcover da Doubleday.

Não deixem de ler a crítica de Lessig — ele próprio atacado por Keen.