Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

16 de dezembro de 2005

A poeira

A POEIRA. Desde o início da refrega presidencial que os comentaristas e comentadeiros da informal Frente Unida de Direita (FUD) andam a contar uma história estarrecedora sobre a esquerda nestas eleições, só comparável ao clássico dos Comunistas Que Comem Criancinhas Ao Pequeno Almoço. Segundo a peregrina tese, que basbaques e mesmo pessoas de bem, ao centro e à esquerda, louvaminharam um pouco por toda a comunicação social (sentido lado, i.e., blogs incluídos…), a divisão da esquerda era prejudicial à esquerda e favorável ao candidato da Direita.

A insistência na mesma tecla devia ter feito soar as campaínhas dos comentaristas e comentadeiros da esquerda, mas estes andam demasiado preocupados com as coisas realmente importantes, como os crucifixos nas escolas e o casamento entre homossexuais, não têm tempo a perder com pormenores sem relevância, como o caso vertente.

Ora, assiste-se precisamente ao contrário. Em democracia, o debate é sempre sinal de pujança democrática e num país com défice de cidadania era de esperar que este género de sinais do género atraísse as hordas insatisfeitas. O maior partido do centro e actualmente no poder, o PS, já tinha conquistado a simpatia há um ano precisamente com uma corrida interna a três que deixou a direita em estado de choque, horrorizada com tanto oxigénio político. O facto de dele sairem dois candidatos não joga contra o PS, como pensam até algumas almas de pendor socialista, mas sim a favor. Tivesse Sócrates gerido um pouco melhor o discurso e tínhamos um PS a derramar o seu orgulho por estes dias.

Muitos candidatos à esquerda,como é óbvio para todos e sobretudo para esta FUD que não se tem poupado a esforços para empoeirar os ares da comunicação social, ajuda a reter os votos… da esquerda. Até a alarga, na medida em que os quatro candidatos acabam por entrar pelo centro, para se distinguirem uns dos outros. Ora, alargando-se a esquerda é claro que o centro encolhe um pouquito. E sem o centro-esquerda firme no bolso é uma miragem Cavaco ganhar à primeira (e à segunda é um caso a ver).

Desde que me lembro, estas são as eleições mais livres para quem é de esquerda. O voto útil é o voto em qualquer candidato! Tudo serve para encolher a margem da direita. Até as franjas de Louçã e Jerónimo, aliás os primeiros a perceber que desta feita não seria necessário engolir nem sapos, nem elefantes, nem mesmo os fantasmas. Estas eleições são as mais interessantes dos últimos dez anos, desde a derrota do experiente Cavaco às mãos do então desconhecido, nunca-governante e supostamente mal preparado Sampaio, que sem dúvida alguma por acaso (notar a ironia) cumpriu o papel com brilho. Nestas eleições todas as pessoas do centro para a esquerda têm a oportunidade, única, de votar em quem mais lhes apetecer — sem as peias partidárias, sem a premência de vencer, sem a pressão de evitar a derrota.