Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

23 de maio de 2006

A propaganda

Vasco Pulido Valente decidiu responder hoje no Público com “propaganda” ao que considera ser a “propaganda” deste Governo. Todos nós temos direito a usar a propaganda, está bem de ver, e não me passará pela cabeça negar tal direito fundamental a ninguém, incluindo Vasco Pulido Valente (VPV).

Vale a pena perder algum tempo sobre o texto, já devidamente incensado por uma blogosfera sempre sedenta de zurzir sobre alguns dos poderes “instituídos” (sempre os mesmos: o governo e a comunicação social, nunca se vendo uma crítica ao poder económico ou ao poder militar, por exemplo). É curioso observar que os poderes criticados são precisamente os que contém no seu código genético a preservação da liberdade de expressão, tendo (governos democráticos e imprensa) historicamente resistido aos múltiplos ataques às liberdades (contando-se algumas batalhas perdidas para confirmar a nobreza da causa).

VPV apresenta três justificações para recusar um convite ministerial.

A primeira: porque o convite lhe chegou “mal escrito”. Deverá portanto depreender-se que estivesse o convite escrito num Português sem mácula VPV aceitava o convite. Como frivolidade, era difícil imaginar maior.

A segunda: porque considera extraordinariamente estúpida a ideia de criar um ambiente social favorável à leitura, isto num parágrafo onde defende, preto no branco, que «as criancinhas leriam, ou pelo menos leriam mais se o Estado proibisse a televisão, o computador e o telemóvel»! É extraordinário! Num só período VPV explica ao mundo, atónito, que os índices de leitura estão íntima e quiçá exclusivamente ligados ao consumo de televisão, ao uso do computador (presume-se que generalizado, o que talvez explique, finalmente, porque VPV deixou de editar o seu blog) e, pasme-se, ao manuseamento de um telemóvel!

(Num putativo mundo sem televisão, computadores e telefones dos antigos as criança leriam indubitavelmente mais: exemplos, as legendas da rádio, os diários uns dos outros e as enciclopédias, e os recados telefónicos escritos pela governanta).

Finalmente, a terceira razão de VPV: o Plano é inútil. De acordo. A resposta dele é igualmente inútil. Este meu texto é inútil. O próprio Estado é inútil. Aliás, o mundo itself está perigosamente inútil, razão pela qual nos devemos todos vasco-pulidizar e encolher os ombros, passando à clandestinidade cultural de amandar uns bitaites contra as perigosas emanações da res publica (mais uma sacralização do privado).

Um dos principais fundamentos apresentados nesta terceira justificação de VPV é nunca se ter lido tanto em Portugal como agora. Passando piedosamente por cima da contradição (como se lê tanto, se o mundo é composto por mais televisão, computadores e telemóveis?), porque VPV as despreza mais que eu próprio, cito os dois períodos: «O plano é inútil. Nunca se leu tanto em Portugal.» Segundo esta lógica, é inútil qualquer plano para revigorar a economia: as grandes empresas nunca ganharam tanto dinheiro como agora; é inútil qualquer plano para um novo semanário: nunca houve tantos semanários como agora; é inútil estimular a educação tecnológica: nunca houve tanta gente a usar tecnologias como agora; o resto da lista, leitor, faça-a você mesmo: é inútil eu continuar a fazê-la.

Além disso, se um hipermercado já «promove a leitura mais do que qualquer imaginável intervenção do Estado», porque há-de este (ou, já agora, VPV, eu, o leitor) dar-se ao trabalho? Os hiper-mercados são, na lógica vasco-pulidiana, o Novo e Iluminado Eixo Dirigente do país. Muito bem!

A recusa tem ao menos uma virtude: ao contrário de tantos outros compagnons de route na vilipendiação da coisa pública (que os veste, alimenta, protege, subsidia), VPV já não precisa de alinhar num “esquema”, ou fantasia, «para uns tantos funcionários justificarem a sua injustificável existência e espatifarem milhões, que o Estado extraiu esforçadamente ao contribuinte». Ficamos felizes por ele ter atingido a independência material e intelectual (não é o único, embora proceda como se fosse). Por mim, há décadas seu leitor atento e no geral apreciador, dispensava bem esta sua propaganda anti-ministerial. O jactante VPV no seu pior: muita prosa, nenhuma substância, um verdadeiro hino à leitura.