Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

5 de abril de 2005

A propósito de João Paulo II

Não me surpreendeu, é claro que não me surpreendeu, o tom com que os católicos mais fechados receberam o meu texto O Papa insano. A acusação de fascista está um bocado fora de moda :) mas tudo bem. Também não me surpreendeu que limitassem as suas intervenções ao autor recusando o confronto de ideias e posições. Já me surpreendeu a quantidade: esperava mais trovoada desses lados. E também me surpreendeu a quantidade de pessoas — católicas ou não, nem todas apresentaram as credenciais — que comentaram o texto de uma forma construtiva, embora recusando a forma (sou como sou, aqui escrevo assim mesmo) mas admitindo (ou até indo mais longe) as minhas interpretações do pontificado de retrocesso com que Karol Wojtila marcou a sua passagem pelo Vaticano.

A este propósito ligo dois textos exteriores e aqui transcrevo uma carta de um leitor. Os textos: Carta aberta a Wojtyla, o homem, A incontornabilidade do [falecimento do] Papa e A minha opinião sobre o Papa João Paulo II.

A carta (que fica aqui anónima):

O fundo deste texto só pode merecer a maior concordância. No entanto, e porque a forma, com momentos de estilo “gótico glamejante” e outros de “barroco estentóreo”, acaba por deixar o conteúdo quase em segundo plano, apetece sublinhar dois ou três aspectos da questão essencial – o que fez este Papa para merecer tanto encómio, choro e ranger de dentes? Quem não é católico tem a vantagem extrema de se situar fora (tão fora quanto possível, uma vez que a cultura dominante é, ou foi até há pouco tempo, tipicamente contaminada pela visão condicionadora da “moralia” católica, havendo até a auto-catalogação como “católico não praticante” reivindicada por uma parte significativa da população, apesar de tal categoria ser doutrinalmente inexistente, mas enfim…), e poder olhar o que se passa no mundo Ocidental com algum distanciamento, em matéria de Igreja Católica (instituição), Santa Sé (Estado do Vaticano) e Papa(s).

E a verdade é que o Papa João Paulo II representou um retrocesso nos próprios padrões da Igreja Católica, insistindo no celibato dos padres (comprovadamente contra-natura), na discriminação das mulheres (a não ordenação de mulheres sacerdotisas é um sinal da misoginia que a Igreja Católica continua a promover como ideal), na proibição da contracepção (o aborto, então, nem pensar – hipocrisia garantida), na condenação do uso do preservativo (mesmo que para prevenir a propagação das doenças sexualmente transmissíveis) – isto só para referir os casos mais emblemáticos de fechamento aos tempos e aos costumes.

O Papa serviu a Igreja e os interesses de um Estado que conserva uma riqueza notável, faz negócios bancários pelo menos duvidosos (vide dossier do Banco Ambrosiano). Não abriu a Igreja à humanidade, não modernizou a estrutura, não promoveu a flexibilidade. Pelo contrário, longe vão os tempos da teologia da libertação, da solidariedade com trabalhadores e camponeses, na luta dos oprimidos contra os opressores, onde padres lutaram e protegeram populações em extrema pobreza, com a compreensão (ao menos…) da instituição.

Dourar o retrato do Papa, provindo de um país católico, conservador e fechado como é a Polónia, que projectou no mundo uma imagem de diplomata, é um desatino mediático. Fez render a imagem, isso sim. Há estruturas da Igreja que operam em partes do mundo onde dão grande apoio às populçãoes (com oem África ou na Índia)? Certamente que sim. Mas são pessoas que, individualmewnte, se sacrificam e dão a vida por essas misões, não a instituição – que as aproveita, sim, para manter poder e controlo.

A Igreja Católica é um poder, um Estado que promoveu durante séculos o obscurantismos, que perseguiu judeus, livres pensadores, filósofos; que se colocou sempre contra o progresso, avessa ao futuro, apegada aos privilégios que tenta ainda hoje manter a todo o custo, mesmo se teve que mudar de métodos e não usa a Santa Inquisição, limitando-se a proibir livros poupando-se ao trabalho de os queimar em fogueira nos adros das Igrejas. Mas Savonarolas são sempre parte deste poder que procurar o dogma para controlar a (boa) fé de quem precisa desesperadamente de acreditar que há mais vida para além desta. E essa necessidade paga-se caro.

Todas as crenças são “opiáceas”? Provavelmente, embora umas sejam mais do que outras (o budismo zen pode ser comparado às crenças ocidentais?). A Igreja Católica, das Cruzadas à Inquisição, da venda de bulas e indulgências à excomunhão, tem feito o que pode pela infelicidade de quem se lhe opõe e pelo controlo férreo de quem a ela adere. Mais do que ópio, tem sido bem capaz de usar arsénico em doses cavalares para as almas que supostamente tutela. Os tempos mudam mas a história não se reescreve. Os métodos alteram-se mas os fins são reconhecíveis. Haja lucidez.