Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de outubro de 2006

A reabertura do jornal Público para a web

Toda a gente se apressou a saudar a reabertura à web da edição do Público. Eu contive-me. Se tenho a certeza que a opção de fechar foi errada, tenho o feeling que a presente opção, abrir, também o pode ser.

É inegável que a presença do jornal no espaço público diminuiu. Não está nos arquivos dos motores de pesquisa, logo não existe. Mas este sentimento de que tudo tem de ser pesquisável, embora seja a doutrina dominante, não é necessariamente a doutrina melhor para um meio de comunicação. O El Pais ou o Guardian, dois reputados jornais europeus, e a BBC, uma televisão exemplar na presença online, são bons exemplos das práticas jornalísticas em linha mas não devem tal reputação e a admiração dos leitores ao facto de serem pesquisáveis ou abertas. Não as devem a um bom technorati (um serviço em degradação, aliás) ou à popularidade medida em citações em blogs. Convém não nos afastarmos do essencial: reputação e admiração são devidas, sim, ao facto de fazerem as coisas bem feitas, de serem líderes na exploração dos caminhos que a tecnologia abre, de darem mais valias aos leitores. Colhem agora os frutos de não terem temido arriscar quando ninguém arriscava, nem investir quando os patrões de media olhavam uns para os outros e faziam as perguntas erradas aos bill gates errados, quando não assobiavam para o ar.

Sou por princípio defensor das ediçõe abertas. Sempre fui e continuo. Achei um erro o Público fechar, como achei um erro o Expresso fechar — e não me cansei de repetir as críticas. Como achei um erro as redacções separadas. Como acho um erro agora a supressão da redacção online. É o que se chama desbaratar recursos. É o que se chama desorientação, andar ao sabor da corrente. Se não se sabe andar a favor, mais vale andar contra a corrente: sempre existe a possibilidade de chegar a algum lado. À deriva é que não.

Mas há outras questões aqui. Quando soube, na semana passada, quanto facturava o Expresso com as assinaturas online, tive uma percepção melhor do que está em jogo (e não deixei de criticar as opções, ou falta delas melhor dizendo, do Expresso: passei a criticar mais ferozmente, mas como é em sede privada não vos darei aqui conta disso).

Descansem, não mudei de opinião e continuo a defender a abertura do Expresso online. De que forma — isso são outros quinhentos.

Dito isto, a edição do Público está agora bem melhor. Não por obra e graça da “abertura”, mas por ser alvo de maior cuidado e empenho.

(Mais algumas coisas, preferi dizê-las primeiro ao António Granado.)