Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

5 de abril de 2007

A rede dos donativos

Seja para a Cruz Vermelha e outras ONGs, as vítimas de desastres naturais, os veteranos feridos em combate ou doentes sem dinheiro para um transplante, as pessoas doam cada vez mais na Internet.

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Mais que uma tendência, a caridade está a assumir uma posição de relevo na economia global, com os donativos a substituírem o investimento, tanto público como privado, num número crescente de oportunidades. As tecnologias de informação e conhecimento vieram acentuar a questão de diversas formas, sendo as mais apelativas o protagonismo de bilionários da indústria da informática, a começar por Bill Gates, e os sites de campanhas e recolha donativos, nos quais milhões de internautas depositaram só no ano de 2004 mais de 2.500 milhões de euros (ver quadro abaixo).

Se nesse ano o impacto dos donativos em rede já se tinha feito sentir, os acontecimentos de 2005 foram a confirmação. O tsunami asiático por um lado e o furacão Katrina por outro vieram impulsionar, em especial a partir do público estado-unidense, esta nova forma de obter financiamentos das massas. Os números da Cruz Vermelha são ilustrativos: 22 por cento dos fundos resgatados pela organização para o tsunami de Dezembro de 2004 foram obtidos na Internet, percentagem que duplicou para 45 por cento com o furacão Katrina, meses depois, em Agosto de 2005 (link).

Nasceu a indústria dos donativos. As tradicionais organizações de recolha de fundos estudam os casos umas das outras e decalcam métodos e o nicho software para publicar e gerir websites de apelo à caridade (e ao investimento) está em crescente, como uma simples pesquisa por online fundraising software no Google confirma. Mas não são só as organizações a explorar o novo filão: sítios como a PledgePage dão ao vulgar indivíduo a possibilidade de abrir uma página de recolha de fundos para custear despesas de tratamentos. Segundo os números publicados no site, 2.736 campanhas obtiveram 2.174 milhões de euros.

Note-se também que angariação de fundos online não é uma mera cópia da caridade como a conhecíamos. Além das razões humanitárias (catástrofes e doenças), organizações sem fins lucrativos estão a descobrir a rede como um importante fundo de financiamento de projectos e mesmo empreendedores comerciais usam técnicas de marketing online para captar investimento. Estima-se que em 2006 o valor do online fundraising tenha duplicado face a 2005.

Mas a rede não dá só dinheiro. A campanha Make Poverty History (www.makepovertyhistory.org), a mais bem sucedida entre as muitas que decorreram em 2005, assentou na Internet parte substancial da sua estratégia. Mais de um milhão de pessoas colocou nas suas páginas e blogs a tarjeta branca que se tornou numa marca fortíssima. O apoio popular reforçou o poder da campanha, que conseguiu feitos notáveis como colocar Nelson Mandela em Trafalgar Square perante 20.000 londrinos, ser conhecida por 87 por cento da população britânica, meio milhão de pessoas escreveram a Tony Blair e 800.000 activistas online aderiram ao website da campanha, culminando com a maior manifestação contra a pobreza planetária jamais realizada, durante a cimeira do G8 em Edimburgo.

Quadro:

Quanto vale a recolha de fundos *

1999 161

2000 441

2001 860

2002 1205

2003 1596

2004 2520

* em milhões de euros

Fontes: Wired, onphilanthropy.com

(Adaptação de um texto publicado originalmente no Expresso em 11 de Março de 2006)