Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

6 de abril de 2005

A refundição da Direita

A copiosa, nunca vista derrota eleitoral de Fevereiro deixou a Direita em estado de choque. Nunca, como no último mês e meio, se havia escrito (e pensado?) em Portugal sobre a Direita.

Não existirá tal coisa como uma refundação. Como observou Miguel Sousa Tavares, só se pode refundar o que já foi fundado. Quando muito, as Direitas podem refundir-se.

Usem a palavra que usarem, a que melhor descreve o estado actual (e futuro) da Direita portuguesa é a palavra crise. Uma crise profunda e que, ao contrário das crises de Esquerda, não é fácil ruminar. A crise radica num desajuste da realidade que ainda por cima é negado.

O pior problema da Direita portuguesa é apenas e somente ter de se habituar, 30 anos depois, à Democracia. Enquanto o não fizer, enquanto continuar a travestir de “democracia” a sua autocracia, a Direita — ou melhor: as direitas — continuará a penar.

À excepção de um curto período, que começa com o PREC e acaba na morte de Sá Carneiro, em que os dois principais partidos da Direita se viram forçados, tal era a confusão e gritaria geral nas ruas, a exercícios democráticos, não mais PSD e PP se deram ao luxo de contrariar a sua natureza: estruturas musculadas com a única finalidade de evitar que o Poder político caisse no homem da rua. (Aliás, é legítimo especular que foi essa evidência de musculação centralizante a responsável por atrair ao PSD, como moscas, gentes oriundas do “socialismo” de tiranetes à esquerda da Esquerda democrática.)

Ora, acabou por acontecer à Direita o que era manifestamente previsível. Caiu do poder precisamente na altura em que os seus dois comandatori eram homens fracos. Vazios de autoridade e de poder pessoal. (Ao contrário do que julgou Paulo Portas, a autoridade não é um fato que se veste e uma máscara que se põe.)

Com o CDS a braços com uma crise ainda pior, uma crise de identidade agravada a que se junta a absoluta orfandade de líderes, e os partidos mais pequenos ainda a acotovelarem-se no espaço mediático, resta ao país da Direita que pensa no Poder apontar para o PSD.

O PSD não sabe exercer política em oposição. O que é compreensível: raramente teve oportunidade de praticar ao longo de 30 anos. Os seus quadros têm a mais fácil das noções de comando: o comando no Poder, o comando com todos os meios à disposição. Obter esse estatuto, limpo e entregue na forma de um Governo, é uma tarefa em grande medida desconhecida por aquelas bandas. O Poder transmitia-se das mãos de um líder para as do seguinte.

O PSD está longe, muito longe da chamada “sociedade civil”. É, hoje, um partido sem reconhecimento fora das suas bases, ou clientelas, naturais. As suas cúpulas na capital assustam o que resta do país rural, que foi um dos seus sustentáculos eleitorais. Os seus desastres regionais e autárquicos minaram a credibilidade junto do eleitor médio urbano. Exceptuando os oportunistas que vêm no partido uma escada para o emprego, os jovens não conseguem emocionalmente aderir a um partido de imagem gasta, demasiado piquenicão e pouco ou nada concerto. Isto para não mencionar a ausência de respiração cultural que o partido continua a evidenciar, apesar de tão repetida essa sua lacuna. Partido de alguns homens cultos, partido com atroz imagem de incultura: um paradoxo sem solução?

O PSD só voltará ao Poder por uma de duas vias. A primeira é aparentemente a possível, quando olhamos para o Congresso do PSD que se aproxima. Tentar colocar o partido na senda democrática. A segunda está fora de questão: não tem um putativo comandante das tropas. O último que parecia capaz de continuar a saga autocrática fugiu, revelando-se afinal um completo bluff. Sempre suspeitei que Durão Barroso não tinha estrutura e vocação para encarnar o pai tutelar de que o PSD (e o seu eleitorado) precisa para dar um sentido à sua vida — e estender a mão à mesada do Estado.

Porém, a primeira tem uma desvantagem: só chegará ao Poder numa estratégia de médio ou longo prazo. O PSD correrá o risco, diminuto mas existente ainda assim (sendo isto tão novidade no partido quanto a ausência de um pai), de as suas franjas se virem a encantar por alguma das forças liberais saídas nos dois últimos anos do novo espaço de pensamento democrático que são os blogues, entretanto a organizarem-se em partidos.

A segunda não tem espaço de germinação. Os barões, essa reserva de massa cinzenta do partido, também fugiram da actividade partidária, engordaram na vida civil e é claro que não deixaram prole: uma figura tutelar basta-se a si própria, um líder não forma discípulos (forma seguidistas). Está provado que eram barões sem exércitos, apenas séquitos. O homem que vem de Londres não tem o calo político necessário e pronto foi metido na ordem pela casta de aparelhistas. Fora do aparelho restam ao PSD uma, duas figuras boas no mister de zurzir inimigos e aparar os excessos internos, demasiado aburguesadas para agora virem desperdiçar anos de vida numa empreitada espinhosa e de final incerto.

Portanto, o país da Direita que anseia pelo Poder tem um problema. Não se vê como pode o PSD querer ser governo no lugar do governo. Simplesmente, não tem gente.

Vejam o que se passou com o PS que, em pouco mais de um ano, graças aos seus (bons) hábitos democráticos, renasceu — esse sim, refundou-se! — e antes e durante o seu Congresso revitalizou o seu tecido através do amplo (até acalorado) debate de ideias, choque de personalidades e luta de tendências.

Já o PSD prepara a sua magna reunião como todas as anteriores: uma celebração pública, e perfumada de democracia pelas bases, do líder encomendado por catálogo. Debate de ideias, zero. Confronto de putativos estadistas, zero. Reposicionamento de ideário, zero.

Um partido onde só concorrem à liderança figurinhas em busca do reforço da sua posição distrital, ou figurões com a certeza da vitória como pré-requisito, é um partido sem hipótese na dura batalha pelo poder. Onde está a capacidade de risco? Não galvaniza o homem da rua, o eleitor. Não atrai a média e alta finança (que, como é sabido, prefere frequentar os salões do Poder e actualmente a força no Poder estende-lhe as passadeiras vermelhas e franqueia-lhes as portas dos salões).

O PSD terá de se derreter e transformar profundamente. Marques Mendes pode até ser homem para iniciar o processo, acredito porque tem perfil de democrata, cinzelado no Parlamento e nos gabinetes. Mas não o concluirá.

Tal como Fernando Nogueira (o homem que salvou da desagregação o PSD pós-Cavaco, e a quem o partido nem sequer agradeceu), está fadado para a transição. Mais lenta e penosa desta vez. Porque, ao contrário daquele, Mendes não tem como mascarar a realidade: o PSD não tem eco na sociedade civil portuguesa, perdeu o encanto e foi desacreditado. E, à Esquerda, a força é agora maior: um líder com crescente carisma, feito em pouco tempo, é certo, mas o carisma tem-se ou não, não há meio termo, e José Sócrates já o tem.

Se a vida não está fácil para a Direita velha, é risonha para as novas forças emergentes ao centro, gente sem heranças (políticas e imperiais) mas bem formada, inteligente, que bebe da fonte pura do liberalismo que não das águas podres da ala liberal do Marcelismo. Gente que não aprendeu a política pela cartilha dos incêndios às sedes comunistas em 75, mas nos salões civilizados da modernidade.

Os próximos anos serão muito curiosos à Direita em Portugal. O PP corre o risco do desaparecimento, uma vez mais, e já não tem a base de conservadores herdada do Salazarismo (já não tinha, sobreviveu nos últimos anos à custa da golpada de Paulo Portas). O PSD está em desagregação e, dourem a pílula como quiserem os inúmeros colunistas do espaço mediático tradicional — que é um feudo conservador ao pior estilo, embora eles assegurem tratar-se de um bastião das esquerdas, uma opinião que não resiste á análise factual — ainda nem bateu no fundo. Enquanto isto, novas forças sociais emergem — com raízes já na Democracia. Muito interessante, muito interessante.