Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

16 de julho de 2007

Ainda a direita, depois do terramoto lisboeta de 2007

No PSD a moral deve estar mais baixa que barriga de jacaré, com a dupla humilhação: fazer oposição ao governo foi penalizado pelo eleitorado e o despedido Carmona ganhou ao craque contratado, Negrão. Mas o PSD é o PSD, pelo que se há-de levantar um dia destes. Já à sua direita…

O CDS-PP voltou a submergir nas trevas entre legislativas. O partido é um partido virtual, liga-se e desliga-se com as luzes das câmaras de televisão. É um partido para formar quadros, não é um partido para ter militantes e acção política continuada.

O pior é que o seu código genético foi profundamente alterado e o único préstimo para a democracia que se lhe conhecia (formar quadros, que depois saiam do Caldas para a verdadeira política) está a desaparecer. Na última década, o CDS confirmou a capacidade de Maria José Nogueira Pinto e mais nada: Manuel Monteiro vagueia perdido entre as franjas das franjas da direita e, se não sai da política, em breve Paulo Portas se lhe juntará.

O pior de tudo, ao largar as suas referências históricas o CDS-PP entra em concorrência directa com os grupos como o PNR, a verdadeira ponta direita do espectro político nacional. Esmagado entre o PSD, que lhe come os moderados, e o surgimento dos verdadeiros “contras” (o CDS-PP tem fingido ser contra o regime, indo buscar esses votos), o antigo partido do táxi ficará conhecido nas próximas eleições legislativas como o partido do Smart.

Portas, que só se quis servir desse eleitorado para um dia entrar no partido que lhe poderia dar a única coisa com que ele se preocupa (o poder), acabou por atraiçoar o CDS-PP e esvaziá-lo: à esquerda, correndo com os moderados ou para fora, ou para rumos de aproximação ao PSD (que abrirá as fileiras aos quadros que o quiserem, nas legislativas de 2007, para se renovar e para se vingar); e à direita, abrindo o campo do discurso radical populista a quem está mais talhado para tal que o “paulinho das feiras” — um personagem hoje incongruente na vida política nacional.

O radicalismo de direita (e o da esquerda, btw) não se mostra para a televisão: faz-se no circuito do panfleto (hoje, do blogue, e esta direita “fora do sistema” tem na blogosfera um activismo importante). Portas, como Monteiro, são “do sistema”, são moderados. Não têm hipótese: em breve o PNR os substituirá. José Pinto-Coelho terá todos os defeitos que lhe quisermos colocar, mas tem dois ingredientes fundamentais para a estratégia de crescimento à direita de um CDS descaracterizado, os dois ingredientes que faltam a Monteiro e a Portas para segurar esses votos: autenticidade e frescura. É combativo e aguentou muito bem (eu diria: reverteu a seu favor) o choque com os Gatos Fedorentos.

É por isso que — doa o que doer — a verdade da noite eleitoral para a direita ideológica está expressa no comunicado do PNR: “o PNR sai ileso destas eleições como uma força política em crescimento, com um discurso próprio e único, e arguindo valores e bandeiras que nenhuma outra força política representa ou defende: os valores e as bandeiras de Portugal, a independência nacional, os interesses dos Portugueses, o respeito da nossa História e Cultura“.

O mundo já estava perigoso antes, pelo que Pinto-Coelho não é propriamente uma ameaça. Mas baralha definitivamente o campo da direita ideológica. Até aqui representada por farsantes, agora com um líder que parece genuíno, autêntico. Até às últimas eleições legislativas os votos da direita marginal entravam no CDS-PP, a partir de agora este pode contar com menos um por cento — que é quanto vale, para já, as antigas extremas direitas, agora renovadas e unificadas no nome, que é um ponto de partida de grande valor simbólico, e num rosto coerente.