Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

16 de setembro de 2006

Ainda Fallaci

Passei parte da semana perplexo. Porque carga de água os blogues de direita fizeram o pleno da carpideirice na morte de Oriana Fallaci?

Se a senhora era anti-fascista e filha da esquerda, porque baba a direita portuguesa por ela? Porque se escandalizam as comadres quando alguém, muito fallacianamente, faz notar o óbvio?

Como jornalista, a senhora foi no mínimo polémica e escandalosa. As suas entrevistas ficaram célebres e foram tão boas que ninguém reteve o que disseram os coitados dos entrevistados. O que fica na História é a rudeza das suas perguntas, não o que responderam as vítimas. O que resta de Oriana Fallaci é a memória de Oriana Fallaci. A obra de Oriana Fallaci é Oriana Fallaci ela própria. Se eu quisesse um exemplo de como um jornalista não deve comportar-se, podia muito bem dar o exemplo de Oriana Fallaci. Se eu quisesse dar um exemplo de armadilhas a evitar na exposição pública do jornalista, começava por Oriana Fallaci.

Logo, não é a sua carreira como entrevistadora há duas gerações atrás que apaixona a “direita irreverente” de hoje (muita dela nem sabia ainda ler quando Fallaci estava na moda, há 20 anos). Já suspeitava que não fosse.

Não.

As lágrimas e as homenagens são por um lado o agradecimento (tardio, como convém a qualquer português) pela forma como Fallaci expôs Álvaro Cunhal — o homem que a italiana acabada de aterrar em Lisboa confundiu com outra pessoa, pois dele escreveu desassombradamente tratar-se do homem mais poderoso de Portugal — numa entrevista que o entrevistado nega ter dado.

E por outro o facto de a raivosa Fallaci escrever sobre um Islão fanatizado que quer reconquistar a Europa, colocar os europeus de joelhos a olhar Meca e as europeias vestidas de burka. A direita adora esta imagem dos infiéis sanguinolentos que sonham com o silvo das cimitarras a degolar cristãos e a reconquista de um continente. É o “estimulante” que precisam para se acotevelarem para a briga, é uma razão para falar em “guerra de civilizações” (o que implica aceitar que Bin Laden é um homem civilizado, o que eu não aceito).

A direita puxa Fallaci para dar credibilidade aos seus delírios, esquecendo que Fallaci, numa versão leve do que escreveu João Morgado Fernandes, já não contava para o mercado da informação nem sequer nos mercados periféricos.

Mais que a Fallaci corajosa dos 70 e 80, é esta Fallaci alucinada que foi agora homenageada em morte. A mim não me parece grande coisa. Mas encolho os ombros.