Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

29 de julho de 2007

Ainda o Algarve

Há 40 anos as estradas para o Algarve eram três. Uma chegada ao Atlântico, que era tomada depois de Grândola pelos veraneantes que demandavam Lagos e Portimão; outra chegada à raia, pobre, escaldante e deserta, tomada pelos ciclistas e por algum caixeiro-viajante vindo do Centro por dentro, no circuito Castelo Branco, Portalegre, Évora, Faro (Beiras, Alentejo, Algarve).

A primeira é a N 120 e estou certo que alguns leitores da minha idade em diante se lembrarão dela. A última é a N 122 de péssima memória — excepto para Manuel Zeferino que, em 1981 e ao serviço do FC Porto, ganhou a Volta a Portugal em bicicleta fugindo por essa estrada infernal (literalmente) à segunda etapa, ganha com mais de dez minutos de avanço sobre o pelotão, dez minutos que Zeferino geriu com zelo até ao fim. Só quem já passou nessa estrada no Verão, como eu (sou repetente em Voltas e Grandes Prémios), está em estado de apreciar condignamente o feito de Zeferino, que consistiu menos na gestão do avanço e mais… em aguentar calores de 48 a 50 graus ao Sol e fazer a bicicleta avançar no alcatrão derretido e espapaçado, na serra erma. Um pavor.

Resta falar da N 2, ao centro.

Era a estrada para o Algarve e do Algarve. As famosas 365 curvas do Caldeirão, que não eram 365 exactamente, claro. Hoje é praticamente uma ruína. Aliás, das três é a pior: as outras têm alguma serventia local, a N2 é que foi a prejudicada, se o termo se aplica, pela IC 1, que a partir da década de 70 fazia a serra mais ao lado, de São Bartolomeu de Messines a Ourique.

ria formosa luz de tavira 2007

Beleza inexplorada: Ria Formosa, fim de tarde.

Saíamos no Peugeot 403 cinzento (o famoso “Propósito”) pela fresquinha, pela saída de Alportel; oito quilómetros planos até ao Coiro da Burra — ao lado, Estói e as ruínas de Milreu — uma aldeola ou conjunto de casario que já não existe no mapa e que marca o sopé da Serra do Caldeirão. A partir daí, e durante duas intermináveis horas, o meu pai não conseguia meter a quarta velocidade. Sempre a subir, a descer, e/ou a curvar, São Brás do Alportel, Cortelha (conhecida pelo medronho e pelas provas de motocrosse), um longo ermo sem nome até ao Ameixial, depósito de semi-eixos partidos e cargas de cortiça alijadas dos TIR da época, heróicos camiões de 6 e 8 rodados. Até Almodôvar ficava um pouco mais fácil, as curvas de cachimbo (homenagem particular * ) davam lugar a curvas “apenas” fechadas, e daí até Castro Verde demorávamos quase nada, para quem tinha passado a Serra à média cansativa de 40 kms/h.

Há três ou quatro anos “fiz” esta estrada, convicto de que era um passeio turístico dadas as espectaculares vistas do Caldeirão. E admito que seria — mas não vi nada, na luta interminável com a estrada. O piso todo comido, semi-abandonada, como de resto a própria Serra do Caldeirão. Outrora fervilhava de actividade, mas hoje está entregue aos bichos, deserta, sem interesse, com dó. (A consolação: três minutos com a vista lá de cima do Caldeirão, magnífica, apesar do vento e do ar empoeirado.)

As serras algarvias sempre foram pobres. O Caldeirão era a menos pobre, por causa do comércio que a Estrada Nacional número 2 levava. A primeira vaga de turismo — o turismo nacional popular, da excursão da camioneta e do garrafão, poucos se lembram que precedeu a segunda vaga (com a qual conviveria), a dos anos 60 para 70, já com as burguesias nacionais encafuadas no carrito, colchões Repimpa e chapéus de sol de gomos coloridos a sair das janelas, e “os ingleses” a chegarem ao Aeroporto de Faro em vôos regulares — levou alguma prosperidade, efémera, às gentes serranas. As moças deixaram os barrancos para viver na cidade e lavar as toalhas das mesas que os moços punham para “os ingleses” (tudo o que não fosse português ou espanhol era inglês ou camone).

O pior era a Este: poucas regiões portuguesas conheceram os índices de dificuldade sentidos pelas populações deserdadas do Nordeste algarvio, ao lado do Guadiana. Dos dois lados do rio o cenário foi igualmente inóspito séculos a fio, duas populações abandonadas pelos deuses desde que a pujante Castro Marim declinou, depois dos Cavaleiros da Ordem de Cristo a trocarem por Tomar. Já no século XX, que conheço melhor, Franco e Salazar ignoraram aquelas gentes — ou para lá desterravam os marginais, para amargarem a desenterrar pedra e a erguer colmeias para vender frascos de mel aos passantes. Ali subsiste-se, na melhor das hipóteses.

Mas as democracias trouxeram o turismo e o turismo está a revitalizar o tecido social das serras algarvias, começando dos lados para dentro.

(Castro Marim é uma povoação curiosa: ponto nevrálgico de duas ou três economias ao tempo em que ainda não havia estados-nação, ora era árabe, ora era cristã, e passou uma boa parte da sua vida a ver mudar as culturas. Surpreendentemente cosmopolita e bela, muito bela, como só uma cidadela milenar pode ser bela.)

A revitalização demora a chegar ao coração do Algarve, claro. A Fóia, o tecto do Algarve a 900 metros de altitude, e a serra de Monchique, das romarias aos caracóis no 1º de Maio e dos burros ainda hoje (refiro-me aos de quatro patas, malícias não permitidas), e o Caldeirão tiveram um fôlego aquando da primeira vaga do turismo no final dos 50, inícios dos 60. A Fóia ainda hoje é muito conhecida pelos portugueses acima dos 55 anos, tendo sido um ponto fundamental do roteiro turístico do Portugal de Salazar. A segunda e terceira vagas, porém, privilegiaram a faixa costeira — uma língua de areia, lodo, rochas e aldeamentos turísticos com dois a três quilómetros de largura, situada entre o Atlântico e a Nacional 125. O “desenvolvimento” concentrou-se aí, o resto era paisagem breve e apoio para as auto-estradas que levariam as pessoas mais depressa às praias, restaurantes, camas, bares e discotecas que passaram por ser “o Algarve” durante 30 anos ou mais.

Nos últimos anos, contrariando o movimento exógeno dos anos 90 — o período de avanço do betão cavaquista foi aziago para o interior do distrito de nascimento do então Primeiro Ministro –, notou-se alguma actividade económica trazida por um tipo de turista um tanto estranho: vem para quinze dias de sol e fica anos a viver da pensão, muitas vezes sem regresso. Chegam a Albufeira e Portimão e quando o dinheiro começa a apertar acabam por fugir para o interior, onde a habitação e a comida ficam muito mais baratas e os atractivos se mantêm (tudo, menos regressar às aschaffenburgs e zutendalls pátrias e desprovidas de interesse). Um café tomado em Monchique é quanto basta para pressentir a sua influência, e as reportagens dos jornais locais dizem-nos o resto. Com as pensões trazem também as confusões, é certo.

Hoje, as tendências do turismo são de molde a permitir o regresso do sonho de riqueza, ou pelo menos de uma vida melhor. O barrocal — a faixa seguinte, entre a Nacional 125 e as serranias, de onde saía a riqueza do Algarve quando esta saía da terra e das amendoeiras e laranjeiras e figueiras e alfarrobeiras e mesmo sobreiros — está a ser ocupado por campos de golfe e o grande medo, que é a falta de água e a desertificação à espreita, ali do Norte de África, pode ser, dizem-me, largamente infundado. Não cabe aqui-agora, mas as técnicas de rega podem dar-nos uma indústria do golfe auto-sustentada em matéria de consumo de água. Hope so, really. O golfe por baixo e as vistas por cima, na serra — o turismo das vistas, da história e da cultura e das paredes e das gentes que as ergueram, turismo que começa a estar na moda, a ver-se aqui e ali, que tem vantagens sobre o outro, o turismo massificado.

E depois há outro vector, um vector chamado Alqueva.

Alqueva, no Alentejo, ensinou-nos tanta coisa. Mudar a geografia comporta riscos e tem vantagens e mudar a geografia do Alentejo está a mudar o paradigma alentejano. A água não resolve os problemas num passe de mágica mas trouxe as oportunidades. Trouxe os viajantes. Gente que vem em carros, que tem mobilidade e que desce as estradas para Sul. Trouxe frescura ao ambiente (mudou o clima e mudou as paisagens) e às mentalidades. Alqueva que mudou o Baixo Alentejo, hoje à procura de extrair riqueza do seu rico património, das praias de Vila Nova de Milfontes a Mértola passando por Aljustrel, marco principal de um circuito de arqueologia industrial que se pode ligar à história dos movimentos sindicais no século XX (e ao anarquismo, que ali subsiste numa versão veg-o-punk de gosto duvidoso, mas fica ao menos a memória).

 tavira ponte romana 2007 simetria

Ponte romana preservada. Rio Gilão, coração de Tavira, Algarve, 2007

Alqueva não resolve o principal problema económico da região do Algarve — a falta de água — mas é parte da solução. E já o está a mostrar, indicando ao Algarve “de cima” o caminho da riqueza patrimonial.

Tenho a plena consciência de que se pode fazer mais mal ao Algarve. Afinal, vi o “desenvolvimento” dos últimos 40 anos, as suas grandezas e sobretudo as suas misérias. Esse “desenvolvimento” não é, de todo em todo, o que eu gostaria de aqui ter (ainda escrevo aqui, em Faro). Posso odiar o que fizeram à “minha” Albufeira — mas o “meu” castelo de Paderne está hoje iluminado e dignificado, as pedras que subia a correr desde o rio (quando corre, é o Rio Quarteira e tem uma ponte romana, mas não se vê da A22, está do outro lado do monte) estão, majestosas, a contar a sua história heróica, que as levaram ao escudo da bandeira, na imaginação popular (não é verdade, mas D. Afonso III subiu aquelas pedras para tomar posse da dádiva do rei de Castela).

Posso mal reconhecer Alte e a ribeira, mas o casario não mente: vive-se melhor que à saída dos anos 60, e vive-se melhor que à saída dos anos 90. Pode doer-me a alma quando vejo quilómetros a arder, como vi em 2003 e 2004, porque sei que o que resta das gentes fica sem nada para viver. Estes episódios dramáticos acompanham-me desde os anos 80, quando pratiquei jornalismo por cá, e o seu número subiu até aos cumes dos 90 e desde então cai em extensão, que não em carga emocional. São episódios que pontuam a mudança.

E a mudança que o futuro traz ao Algarve é para melhor. Tenho a consciência de que se pode fazer mais mal ao Algarve (e há quem o tente com abnegado afinco). Não estou nada descansado com o que ouço aos governantes. Mas ando, andamos por aqui, e vejo e sinto e penso e cheiro e olho o sol e o mar e os movimentos e sei onde está a recuperação do Algarve multifacetado em que nasci.

Está no litoral não devorado pelo betão (que ainda é a maior parte do litoral), está no barrocal e está nas serras, uma reserva económica que foi poupada, de esquecida, na vertigem do “desenvolvimento” do betão e do capital.