Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

12 de julho de 2005

Ainda se servisse para alguma coisa

Na sequência dos medonhos atentados de Londres, lá veio a inevitável chusma de políticos sem cérebro pedir maior controlo sobre as actividades dos cidadãos. No caso que melhor conheço, o das mensagens de correio electrónico, a esmagadora maioria das medidas exigidas não serve para rigorosamente nada excepto celebrizar os seus proponentes junto da respectiva classe e entre o eleitorado rasca e ridicularizá-los junto das elites informadas da população.

A única coisa que eventualmente pode ser útil a uma investigação, e mesmo assim as hipóteses são ínfimas, é saber quem enviou determinada mensagem a quem e a que horas. Admito que se estenda por três anos o prazo de manutenção deste tipo de registos. Ao contrário do que os ISP afirmam, não é assim tão pesado nemcaro matê-los — e bem sei o quanto as polícias os agradecem.

Agradecem em casos de lana caprina, como o blogger que disse mal do polícia da aldeia. É altamente improvável que sirvam alguma vez para chegar a um terrorista… O investimento em tempo e dinheiro seria mais facilmente rentabilizado na contratação de agentes e respectiva formação e infiltração nas células da Al Qaeda, para citar apenas um exemplo (apesar de tudo menos) extremo.

É por demais evidente que as escutas do e-mail só servirão para entupir e ocupar uma séria de burocratas sentados frente a um monitor. Vão descascar centenas de adultérios, chafurdar em milhares de conversas da treta – mas baterão repetidamente com o nariz na porta das comunicações cifradas. Ou alguem no seu perfeito juízo admite que terroristas do calibre dos que hoje mantém rendidas as sociedades ricas comuniquem despreocupadamente uns com os outros sem usar os mais sofisticados algoritmos de encriptação de dados digitais, disponíveis de borla em todo o lado e à prova de qualquer tentativa de violação, mesmo com os mais potentes computadores do mundo ligados entre si durante anos?

São medidas desesperadas e inúteis. Dão-nos um retrato demasiado fiel da medida do desespero e da inutilidade dos actuais governantes, quando é necessário enfrentar com eficácia e firmeza os infra-humanos que nos andam a bombear. Estamos mal entregues — e não vejo melhoras em lado nenhum.