Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

16 de janeiro de 2005

As melhoras

«Para muitos eleitores a questão parece colocar-se assim: voto no PSD, que deu cabo de um governo, ou voto no PS, que deu cabo de um país?» (António Pinto Leite, Expresso, 14 Janeiro).

Quando leio merdas como esta primeiro dão-me vómitos. Depois vem a irritação contra a demagogia de alguns comentadeiros – que se torna maior quando são comentadeiros pelos quais até nutria antes alguma simpatia. Mais tarde sobrevem a piedade – e é com essa que acabo por titular este post. Coitado, ó António Pinto Leite. Não o fazia tão afectado pela doença. Olhe, vá tomando os comprimidos, são os meus votos.

Formulando a questão na mesma base, seria mais assim: voto no PSD, que nos últimos 30 anos destruiu paulatinamente as aspirações de duas gerações de portugueses, ou voto no PS, cujo último primeiro ministro cometeu o erro de fugir com o rabo à seringa deixando os seus ministros a meio da função com ele entalado, perdoe-se-me a expressão?

Ou assim, numa visão mais míope, isto é, à centrão: voto no PSD, que nos últimos três anos cometeu a proeza de aniquilar o capital de confiança (não vamos agora discutir se real ou ficcionado) que o país depositava nele dadas as provas prestadas no passado, deixando as finanças em estado muito pior do que as encontrou (com a prestimosa ajuda do PP que agora consegue, foda-se que é preciso um descaramento do caralho, vir dizer que não é nada com ele)? Ou voto no PS, cuja melhor figura do seu último período de governo passou a chefe no lugar do chefe fujão?

( Não invento nada. Façam o trabalho de casa. Vejam as contas públicas. Depois falamos. )

APL, tenhamos piedade da sua condição, consegue ainda chamar «problemazinhos, [...] alguns fruto de pouco [!] profissionalismo» ao actual estado do PSD. Partido que, segundo ele, «apesar de melhores ideias, de mais capacidade de acção [?!?] e de melhores provas dadas terá muita dificuldade em atrair o voto destes eleitores». Os mesmos eleitores que já foram apelidados pelo mesmo comentadeiro de “inteligentes”, porque são eles quem “decide” ao centro quem merece governar e quem deve ser penalizado, isto ao centro, de quatro em quatro anos, como se fosse uma fatalidade imutável a bicefalia partidária governamental no país.

Descansemos, irmões! As reviravoltas de circo do governo e a palhaçada indescritível em que o PSD caiu, do qual fogem pelo silêncio as figuras que prestigiaram o maior partido português e o que governou Portugal o dobro do tempo de qualquer outro, não passam afinal de «problemazinhos». Não ter um líder capaz, nem se vislumbrar quem possa evitar o afundamento do partido pela actual crise de credibilidade e pelo crescimento do CDS-PP, é um «problemazinho».

Exultemos, companheiros! Um líder «corajoso» e sem um único amigo, dentro ou fora do partido, que elencou para o governo as figuras próximas que não lhe deram a nega, num arremedo de conjunto que nem chega a poder ser apresentado como equipa, é capaz de apresentar «melhores ideias» e sem dúvida exibir «mais capacidade de acção».

Como parto do princípio que APL não viveu em Marte nos últimos cinco anos, o que o poderia desculpar de tamanha miopia, daqui lhe envio os votos de rápidas melhoras. Espero vê-lo regressar, um dia, à análise lúcida da realidade.