Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

8 de outubro de 2004

Belém ao fundo

Que me perdoem os vizinhos tão preocupados com a questão da, ui!, censura, mas acho a coisa um perfeito disparate. Censura há em Cuba, por exemplo. O que há em Portugal, como nos EUA e como em qualquer parte do mundo, é o normal (?) relacionamento entre poderes. Poderemos discutir isso, claro, mas noutro contexto. Recuso aliar as duas coisas: Marcelo fora da estação da Quinta e a problemática das relações entre poder político e poder mediático (que está nas mãos do poder económico, o que em si é uma perversidade, mas lá está, fica para outra altura).

O episódio da semana é Marcelo Rebelo de Sousa. É política. Pura. Nada de questões da comunicação social. Política. Cantigas à parte, há para mim duas coisas claras. A saber.

Uma: a avenida para Belém abriu-se repentinamente a MRS. Que publicamente (lá no seu canto dominical) disse e repetiu “nunca digas nunca”, sobretudo em política. À direita a avenida estava a ser pavimentada para Cavaco Silva. Até MRS colocou polidamente algum macadame. Como compete a um general na reserva. Mas em três meses tudo mudou à direita. No PSD, quero eu dizer, pois que o PP pode manobrar maquiavelicamente a actual facção social-democrata no poder mas o PSD é muito maior que essa facção. É um partido de velhos guerreiros que, gostemos ou não dos princípios porque o fazem, lutam pela liberdade. A golpada que colocou PSL no governo só foi engolida a custo com a seguinte água das pedras: mais vale estar no poder que fora dele.

Ora, a argolada monumental do ministro dos Assuntos Parlamentares veio alterar tudo. MRS teve uma oportunidade e cavalgou a onda. Logo. A avenida abriu-se. Ele tem o país a seus pés. É inacreditável? Mas é verdade. Olhem à volta. Quatro anos e meio a pregar — e eis a recompensa, Senhor Professor (vénia e vassalagem). Com a ajuda de um camarada, ops, colega de partido. Desastrada, é certo, mas ainda assim ajuda. MRS goza hoje da simpatia popular generalizada. Grande parte das bases e figuras do PSD está com ele: secundado pelo sábio e “nosso” JPP liderou a resistência aos arroubos dos impetuosos líderes Santana Lopes e José Manuel Barroso (perdeu o Durão na viagem para Bruxelas) e garantiu crítica aos excessos do poder. Nas oposições goza de prestígio pela mesma razão e por mais duas: já perdeu mais que ganhou batalhas políticas mas é um corredor da maratona e a malta gosta dos Carlos Lopes, uma; e outra porque é uma pessoa culta, plural e independente. Ou disso deu ares na televisão — o que não sendo a mesma coisa tem o mesmo resultado.

Depois de quatro anos e meio a pregar, bastaram um ministro desbocado e 72 horas de febre pública para MRS passar da reserva do PSD para figura central da política portuguesa. Tiro-lhe o chapéu.

Não é dispiciendo analisar a esta luz a chamada a Belém por parte de Jorge Sampaio. Que além de contas para pagar a MRS (aquilo do conselho de Estado) tem outra coisa: como sucessor prefere-o seguramente a que Cavaco, que faria muito mais mossa a um futuro governo socialista do que o dialogante e liberal e centrão MRS.

Duas: o PSD continua a ocupar, cada vez mais, o espaço mediático. Não importa se é pela positiva ou não, importa é ocupar as câmaras. Enquanto estão lá não estão com o PS. É uma sábia utilização da lógica de preenchimento do horário nobre, que regula a actual forma de fazer política e “fez” líderes como Santana Lopes e José Sócrates. Durante meses a oposição ao PSD fez-se quase exclusivamente a partir do PSD. Envergonhados com o caso Casa Pia e ensarilhados nas suas próprias contradições, os políticos socialistas (do PS, lembram-se do PS? Aquele partido que ganhou as europeias de Junho?) desapareceram da televisão.

Há merda com um ministro? As redacções chamam Pacheco Pereira ou parecido para uma primeira reacção. E no domingo seguinte MRS lá está (estava) a comentar. É preciso encher as cadeiras de um debate? Louçã ou Rosas funcionam bem em televisão e dão o melhor troco aos Dias Loureiros e àqueles jovens engravatados do PP que querem parecer a todo o custo mais velhos do que são e usam aqueles fatos inenarráveis. Se se telefona para a sede do PS o melhor que se arranja ainda é o marido da Bárbara Guimarães, mas ocupado como anda com o filho tem outras prioridades (e faz bem).

Um marciano que aterrasse agora em Portugal não acreditaria que eu lhe dissesse que o PS é o segundo maior partido português e duvidaria que eu tivesse os cinco alqueires bem medidos se lhe contasse que ainda não há quatro meses venceram umas eleições.

O governo não controla os media (embora algumas das suas figuras mostrem tiques de que gostariam…). A “central de informação” pode cometer erros de análise e não ter controlo sobre os desbocados. Não há censura, deixem-se de idiotices, estão apenas a alinhar no jogo. O jogo da ocupação de espaço.

Do ponto de vista da oposição (e, como tal, do país democrático) é urgente que José Sócrates comece a trabalhar. Ele também sabe as regras do jogo.

Quanto ao futuro, a questão presidencial está arrumada. À esquerda ninguém tem um ás ou um rei sequer. Guterres será com boa vontade, valete. Isto é Sousa ou Silva. Desconfio que será Sousa. O coração do país já esqueceu Silva. Com um bocado de sorte, argoladas ministeriais deste calibre e beneficiando do desarranjo intestinal que as presidenciais causarão à direita, Sócrates pode ser Primeiro Ministro dentro de dois anos. Basta que o PSD não mude de liderança pois ganhará facilmente a um PSL desgastado. Mas convém que comece urgentemente a aparecer na televisão. Ou o país ainda se esquece dele.