Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

19 de julho de 2005

Bill Gates "compra" Durão a preço de saldo

«Portugal acolheu com grande satisfação a escolha de Lisboa, que disputava com Viena a organização deste grande evento». Isto disse à agência noticiosa governamental (só podia) um ex-jornalista, agora porta-voz (só podia) do MNE.

Referia-se à atribuição de um grande evento de repercussão internacional, capaz de cobrir de glória o país?

Não. Referia-se a uma conferência regional (europeia, pois claro) de uma multinacional de origem americana. Um fórum que o homem mais rico do mundo “organiza” para promover directamente as suas políticas junto de chefes de estado sem políticas e outros governantes fracos de espírito. Nele o staff de relações públicas da empresa, comandado pelo vice-presidente para o marketing e devidamente “escoltado”, tenta:

a) assegurar que diversos estados continuem a alugar as leoninas licenças de utilização de programas valiosíssimos e quase impossíveis de obter, como um processador de texto e uma folha de cálculo, de forma a garantir que Gates continua no topo da lista da Forbes;

b) assegurar que os convidados tenham os pratos e copos e olhos cheios durante todo o tempo de duração do evento;

c) assegurar que escutam eficazmente a “visão” para o “futuro” da empresa que esta, num gesto sem dúvida magnânimo, se digna “partilhar” com eles.

Como tentam eles tais desideratos, nem quero imaginar. Contam em princípio com a presença de Gates (ou, quiçá, de Steve Ballmer) na sessão final, para poderem bater palmas até que as mãos lhes doam e pedir autógrafos para os filhos estudantes do secundário (e de algumas universidades onde o uso da Microsoft é, também ele, obrigatório e exclusivo).

Um ministro (Freitas do Amaral) foi recebido por um “vice-presidente” daquela empresa, para, leio estarrecidamente, choramingar “argumentos” a favor de Lisboa. Ao que parece, o principal desses argumentos foi que o MNE terá garantido que o actual presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, “aceitaria” ser “orador convidado” do pretenso “forum”.

Que membros do governo do “meu” “país” publicitem que participam oficialmente num encontro regional de uma multinacional (de má fama, no caso, mas mesmo que fosse de boa fama) já é mau. Que admitam que venderam um telefonema-cunha ao presidente da CE a troco de a sediar, é lastimável. Que haja jornalistas e directores de jornais que engulam sem sais o press-release oficioso e transmutem todo este triste episódio em encomiosa notícia de jornal, transcende-me. Que Durão Barroso se “venda” a Gates a troco de uma caneta com o logotipo da empresa, eis algo que está de acordo com a imagem que dele tenho, pelo que me resta o consolo de ao menos alguem se ter portado à altura nesta história.

Ninguém, no seu perfeito juízo ou não, acredita que o “evento” trará a Lisboa ou a Portugal (caramba!, a coisa foi tratada a nível de ministro!) o que quer que seja. Divisas? Promoção do país nos noticiários da CNN? Ao menos, descontos na compra das referidas licenças anuais de aluguer de software que por acaso se podia ter sem encargos?

Tanta sabugice e subserviência é um mistério. Que não espero ver publicamente esclarecido.