Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

14 de julho de 2007

Blogues proibidos? Um utilíssimo exercício de memória

A melhor definição para Blogues proibidos, o livro de Pedro Fonseca editado pelo Centro Atlântico e à venda por todo o lado (ver nota final de interesse), é dado pelo autor na primeira linha da introdução. “Este livro é um exercício de memória”.

Depois de o ler e apreciar, não encontro melhor forma de o classificar. Blogues proibidos é um utilíssimo exercício de memória — bem que, como é sabido, rareia na blogosfera. Pedro Fonseca seguiu os seis casos de maior impacto mediático da blogosfera portuguesa desde 2003 até aos nossos dias e descreve os acontecimentos num registo minucioso e com distanciamento.

Aqui, duas críticas. Uma positiva, outra menos. Comecemos por esta. Pedro Fonseca é jornalista há muitos anos e leva os tiques da profissão para dentro do livro, o que na minha modesta opinião é um manifesto exagero. Que conduz a um desperdício: sendo um Pedro um jornalista tão antigo neste campo, a sua opinião tem um valor do qual não nos devia privar. Tal como já acontece no seu blogue, Contrafactos & Argumentos (mas aí aceita-se) raramente o Pedro toma uma posição ou emite uma opinião. É um bocado seco — obrigando os leitores a descobrirem o pensamento dele através das escolhas que faz.

É aqui que faço a ponte para a crítica positiva: as escolhas do Pedro são bem feitas, honestas e sucintas. Há milhares de linhas citáveis, de jornais e blogues, relativamente aos seis casos abordados, e separar as que importam — em geral, as originais, as que trouxeram valor informativo, ou em não se cumprindo necessariamente as duas anteriores, o peso específico do autor citado, que pode influenciar a leitura de um acontecimento — é uma tarefa não apenas colossal, como ingrata. Haverá sempre gente capaz de dizer, com justiça, que faltou este ou aquele. O próprio PF, neste caso, podia ter escolhido um ou outro exemplo, tivesse tempo e condições de investigação diferentes. Bem, isto é uma dica para lermos PF: é no cuidado que coloca nas escolhas que devemos procurar o curso do seu pensamento.

Assim, Blogues proibidos é um livro eminentemente prático, um compêndio de recolha destinado a garantir alguma compreensão dos acontecimentos que relata, e das suas épocas, indo para além da memória parcelar (quando não egocêntrica ou interesseira) que os respectivos envolvidos tendem a projectar. Nisso, é valioso. Eu gostava de ver o Pedro ir um pouco além, até porque é das pessoas com maior autoridade em Portugal para falar de blogues: foi o primeiro a manter um registo, uma lista, dos blogues que iam aparecendo, até ser impossível fazê-lo manualmente (hoje, nem com o auxílio da melhor informática se consegue uma lista, o que dá uma ideia do valor daquele trabalho inicial).

Mas talvez seja apenas o meu olhar, e o público prefira um relato mais distanciado.

Quanto aos acontecimentos relatados, para um espectador-participante o mais surpreendente é ver emergir um quadro só possível de visualizar a esta distância.

O Freedom to copy (alegado plágio de Sousa Tavares no romance Equador) não passou de um caso de mistificação da opinião pública. Primeiro, convencendo quem já não gostava de MST de que este tinha plagiado, através do artifício de publicar “provas” “indesmentíveis” que ninguém se iria da ao trabalho de confirmar. Segundo, injectando no próprio fluxo mediático o vírus da mistificação: às tantas o debate de ideias entre o provedor do Público e as jornalistas que tinham escrito uma peça sobre o caso tornou-se mais importante do que apurar se o Freedom to copy era ou não verdadeiro na acusação. E assim ficámos até hoje, e assim provavelmente ficaremos.

“Como a partir de um blogue anónimo se pode insinuar qualquer coisa, qualquer clarificação em jornais de referência permite deduzir insinuações contra o seu autor? É uma sociedade perigosa, esta, sem luz à vista” (página 25).

O caso Abrupto é eventualmente o mais emblemático da relatividade do dia a dia blogosférico — e revelou os mais risíveis disparates e indignações de que eu tenho memória na web lusófona. Começou por ser um alegado ataque ao blogue, por razões evidentemente políticas tendo em conta os antecedentes do seu autor: “querem deitar abaixo o abrupto” (José Pacheco Pereira). Generalizou-se a um ataque indistinto à blogosfera e à liberdade de expressão: “o que importa é que o blogue de comentário político com maior audiência em Portugal e que mais influência tem no incremento da nossa blogosfera está a sofrer ums sabotagem inadmissível. E seria bom que os restantes bloggers em vez de aduzirem explicações esotérico-informáticas ou se rirem alarvemente do caso pensassem seriamente na essência da questão que está aqui presente. E na possibilidade de virem a ser os próximos” (Blasfémias, citado a pp. 43).

Visto a esta distância, ressalta claro que nem ninguém quis deitar abaixo o Abrupto nem a gritaria tinha qualquer razão de ser. JPP segue uma velha praxis soarista e deixa cair um assunto incómodo por detrás de um acordo de confidencialidade com o Blogger — a única entidade que podia confirmar as explicações técnicas e lógicas (ou esotérico-informáticas) avançadas pela minoria que na altura foi violentamente zurzida por “estar do lado dos que querem calar o Abrupto”.

Na Imprensa chama-se a isto de silly season (atento, PF alude à época dos acontecimentos e liga-a à disposição dos jornais para lhe pegarem) e o melhor que tem é que é inócuo e acaba depressa.

O caso do Muito Mentiroso aproxima-se do tipo de processos do Freedom to copy: autoria anónima, mistificação e manipulação das opiniões públicas (blogosférica e mediática) através de várias técnicas de informação e contra-informação. Quanto a Do Portugal profundo: resulta claro da leitura diacrónica permitida pela obra Blogues proibidos que o seu autor procura o protagonismo político; encontrou na blogosfera, nos descontentes crónicos e nos erros de José Sócrates um palco, uma plateia e um argumento de espectáculo.

O livro relata mais dois casos: o Diário de um jornalista (despedimentos do Primeiro de Janeiro) e Chicken Charles, o anti-herói (política local da Covilhã). Pedro Fonseca podia ter ido mais longe em termos da explosiva relação entre blogues atrevidos e autarcas sem paciência, pois havia casos anteriores (Pombal), e ficaram de lado processos judiciais por difamação movidos a blogues por instituições privadas, que não tiveram repercussão nos media (Dito cujo). Mas admito que seriam redundantes.

Em resumo: trata-se de um livro imprescindível para todos os que acompanharam, acompanham ou virão a acompanhar o desenvolvimento da blogosfera.

Nota final: Conheço pessoalmente o Pedro Fonseca há muitos anos, temos actualmente interesses juntos na TubarãoEsquilo, onde o Pedro mantém um projecto; o Centro Atlântico já me editou três livros e conheço pessoalmente o editor, Libório Silva; há um acordo para a publicitação de Blogues proibidos na rede TubarãoEsquilo. Nada disto me impede de ter sobre o livro uma ideia, que aqui partilho. Nada disto me obrigou a escrever esta pequena apreciação crítica, que é rigorosamente independente e autónoma da publicidade ao livro feita nestas páginas. Fica escrito.