Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

21 de abril de 2007

Caça às bruxas

O caso José Sócrates-Universidade Independente é uma abjecção em muitos aspectos. Um deles tem a ver com o que não produziu. Não produziu um ambiente mais limpo. claro ou são na política portuguesa. Não produziu a generalização de atitudes de maior exigência e intransigência face aos responsáveis pelos destinos do país, aos vários níveis dessa condução. Não produziu uma atmosfera propícia a uma renovação do sistema democrático, ou ao agitar de um certo marasmo político cuja existência os irrequietos lamentarão, uma postura muito dandy.

Continuo sem saber o que moveu Balbino Caldeira, mas sei que hoje alimento sobre as suas intenções dúvidas que não me ocorreriam há um mês, ou há uma semana atrás. Avolumam-se dentro do meu espírito as dúvidas sobre os comportamentos subsequentes de quem amplificou o assunto ao ponto de forçar os jornais a mexerem nele (com as indispensáveis luvas).

O lavar de roupa suja continua e não dá mostras de abrandar, bem pelo contrário. Entrámos já na fase do vale-tudo. Vale forjar “cópias” de “documentos”, sabendo-se que os originais não existem ou estão enterrados e não serão divulgados. Vale esmiuçar as relações pessoais e profissionais sob o signo da suspeição — mesmo que em condições normais fosse impensável associar vulgares conhecimentos a secretas moscambilhas, sendo este um país pequeno onde é inevitável todos se conhecerem dentro dos seus meios (geográficos, familiares, profissionais, sociais).

Na fase do vale tudo, ficaremos a saber alguns pecadilhos de algumas pessoas que não mereciam vê-los expostos. E de outras que mereciam, bem entendido. A maior parte desses, pecadilhos insignificantes. Outros, com significado. Todos “julgados” pela mesma tábua rasa.

O que sei é que nada disto é claro. Pelo contrário, é tudo cada vez mais negro. Excepto os resultados da governação do Primeiro-Ministro por onde a blogosfera iniciou esta caça às bruxas. A atmosfera política e social está irrespirável na proporção inversa em que a economia globalmente recupera. Surreal, ou a esquizofrenia dos portugueses no seu melhor.