Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

27 de junho de 2007

Caldeira, Sócrates, justiça, liberdade, Pacheco, censura, blogosfera. Esquizofrenia.

Vai por aí uma enorme confusão e começa a ser difícil acompanhar. Os dados e alguns pensamentos:

1. José Sócrates processa Balbino Caldeira por difamação (eu como governante não o faria, teria desprezado o caso no momento certo e com firmeza, mas respeito as decisões alheias e dentro da lei e das normas);

2. Balbino usa como defesa o contra-ataque anunciando querer processar Sócrates por atentar à sua liberdade de expressão (vai perder porque é um contra-senso: se não tivesse liberdade de expressão não poderia ter escrito livremente o que pensava e eventualmente o que não pensava ao longo dos últimos quatro anos, e muito menos o deixariam processar o Primeiro Ministro, se pode é porque a tem, não tendo assim pés nem cabeça esta sua teoria);

3. Caldeira sustenta a teoria, muito chavisticamente conveniente, de que se forem processados pelos detentores do poder, os cidadãos não devem amochar — o que dá direito a curiosos pensamentos, como: e se eu for processado por um não-detentor de poder (partindo do princípio que alguém sem algum tipo de poder me consiga processar…), devo porém amochar? E se me é coarctado o direito de processar quem me vilipendie, porque hei-de eu sujeitar-me a esta espécie de ditadura “popular” em formação nalguns quadrantes da blogosfera?

4. Há um levantamento popular a favor de Caldeira, expresso através dos mais variados e inusitados meios, considerando em geral tais gentes que vivem num estado repressor (juro que me é tremendamente difícil perceber como podem pensar e dizer semelhante tal pessoas com acesso ao tudo o que é meio de comunicação e através dele condicionarem o exercício dos governos e dos tribunais como nunca tinha acontecido em nenhuma democracia);

5. Se um cidadão tem a ousadia de criticar este movimento ou o seu carismático líder, ou simplesmente dizer-se de lado e que não dá para a petição, é alvo da ira popular e apodado dos piores qualificativos – outra atitude sem dúvida marcante destes novos defensores de um sem dúvida novo conceito de liberdade de expressão;

6. Pacheco Pereira, conhecido por entre muitas outras coisas defender a liberdade de expressão e o direito ao anonimato, é violentamente criticado por pedir responsabilidade aos bloggers, nomeadamente a responsabilidade de tentarem evitar que o anonimato seja usado de forma indigna, ilegal e imoral. Manuel, da GLDQL, “cola” Pacheco a Sócrates numa mesma “ganga do Olimpo” e isso é uma pirueta tão rasteira como as que denuncia, uma forma de obter o apoio do “povo” que aparentemente “odeia” o Olimpo e regurgita sempre que um “deus” é gozado no páteo da vilória.

7. Tudo este burburinho em torno da “liberdade de expressão” da “censura” e da “perseguição”, tudo isso e muito mais, se passa na blogosfera,

um meio de comunicação de massas descoberto pelas elites mais modernaças e sem poiso certo na infoesfera, cujo poder, diz-se com orgulho, chega a suplantar o do jornalismo e dos media “convencionais”,

meio ao qual literalmente qualquer cidadão tem acesso, onde cada um diz literalmente o que lhe apetece onde lhe apetece como lhe apetece (palavra escrita, imagem, desenho, fotografias, video, audio, gráficos, whatever), com o nome que lhe aprouver, numa atmosfera de total liberdade (e excessiva impunidade, mas ai de quem escreva isto!), sem a mínima hipótese de controlo férreo,

meio a reboque do qual andam, baratinadas, as várias polícias atrás de meliantes ubíquos e invisíveis,

do qual pouco percebe o aparelho judicial,

o qual o meio político olha de soslaio sem saber por que ponta lhe pegar pois tudo é redondo nesta esfera,

no qual as empresas entram o mais cuidadosamente que podem não vá a sua reputação pegar fogo devido a um palerma qualquer,

meio ao qual o Estado chegou tarde e tarda em assimilar, quanto mais “controlar”,

um meio, enfim, que tem todas as virtudes, alguns defeitos E DO QUAL É EXTRAORDINÁRIO um português queixar-se de censura, ameaça à liberdade de expressão e por aí fora. Experimentem contar esta história — os factos, comprováveis, não a alucinação colectiva em que vivem algumas caixas de comentários — a um cibernauta estrangeiro desinteressado.

A esquizofrenia deixou de ser latente e passou a vigente.