Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

20 de maio de 2007

Câmara de Lisboa: a habilidade do Professor Marcelo

Hoje em fase eufórica, Marcelo Rebelo de Sousa tenta um flic flac opinativo de se lhe tirar o chapéu. Habilidosamente, sublinha alguns dados que ressaltam de sondagens muito preliminares (nem sequer levavam em consideração o hipotético nome do CDS-PP) para apressar o esquecimento da memória colectiva acerca do envolvimento do PSD no cataclismo autárquico que se abateu sobre Lisboa.

Dizendo-se surpreendido com Helena Roseta, Marcelo realça a bold brilhante o que considera ser uma oportunidade que se abre para Fernando Negrão e avançando a extraordinária ideia de que, afinal e consequência de uma Roseta mais forte do que esperado, já não são favas contadas para António Costa.

É Marcelo no seu melhor ;)

Mas a memória dos eleitores não se limpa com uma prestação televisiva e um par de artigos de “opinião” em cima de umas sondagens feitas quando nem sequer se conhecem os candidatos: o wishful thinking de Marcelo e de outros treinadores de bancada laranja é compreensível, tentam fazer de conta que Marques Mendes não é um cadáver político adiado e fingem que o PSD ainda tem capacidade de marcar a oposição ao governo e ao PS (não tem).

A desorientação é de tal maneira que mesmo com os piores números do desemprego dos últimos 20 anos, um ataque pessoal cirúrgico, dois anos de desgaste de Governo e uma mini-remodelação apressada, as sondagens (estas, regulares) dizem que José Sócrates está no limiar da maioria absoluta e só um milagre evitará que o PS reconquiste a maior câmara do país — menos de dois anos depois de ter tido apenas 26 por cento dos votos em Lisboa, contra os 42 por cento do candidato suportado pelo PSD.

A habilidade de Marcelo consiste também em disfarçar a verdadeira questão histórica destas eleições: a pressão urbana não é amiga dos políticos conservadores, mais propensos a gerir os concelhos rurais e as pequenas cidades. De Abecassis a Carmona, a Câmara de Lisboa nunca saiu bem governada à direita. Só presidentes de esquerda (Sampaio, que graças ao bom desempenho saiu dos Paços para a Presidência da República, e João Soares que perdeu por um triz com o eleitorado a castigar mais o seu partido a nível nacional que o seu exercício na câmara) sairam bem da aventura; apenas autarcas de esquerda manifestaram, em décadas, alguma capacidade de gestão e alguma sensibilidade para os problemas da grande urbe (de resto, uma reconhecida tendência da área metropolitana de Lisboa, que representa 40% da actividade económica).

Por fim, a habilidade “tapa” os problemas intestinos do PSD; a péssima gestão do momento político relativo à crise lisboeta fez com que Marques Mendes levasse um rombo muito grande dentro do partido e só a bonomia dos media, entretidos numa fase de manchetes sociais (dos raptos ao ineditismo do campeonato de futebol), evitou uma maior transpiração do tema para os analistas. Não me restam dúvidas que internamente Mendes perdeu o crédito e espaço de manobra. Alguém tinha de cortar nos danos e como ninguém se chegou à frente, lá veio Marcelo fazer de bombeiro.

Paulo Portas não tem tido grande sorte no retorno (em primeiro lugar, nunca devia ter regressado), mas bem pode sorrir: no fim de semana o palco foi dele (e do irmão Miguel, com o BE a marcar pontos na questão do desemprego).