Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

13 de setembro de 2007

Camisolas (e socos) não ganham jogos e o relvado não é um tribunal

(ou: um post à Tavares-Teles)

O António Tadeia estava a dizer que o golo sérvio, embora eventualmente obtido em fora-de-lança, era justo, porque os jogadores sérvios o procuraram e, de certa forma, mereceriam, depreendendo-se que os portugueses, por seu turno, mereciam a punição do empate porque não procuraram evitá-lo.

Admito que sim. Quando eu era analista de futebol também caía facilmente neste tipo de fraseologia. Uma pessoa tem de procurar os símbolos comunicacionais comuns e esta analogia é facilitadora.

Mas — como o meu amigo Tadeia sabe muito bem, e no comentário final provou-o com a sobriedade e elegância que vão sendo a sua marca — o relvado não é um tribunal e o objectivo do futebol não é alcançar a justiça: é vencer o adversário. Apenas. Só.

Ouvia um repórter aludir à surpresa do mundo, ou pelo menos da Europa do futebol, pelo percurso desta equipa, que é uma equipa prestigiada. Só um adepto sem memória ficará surpreendido: o futebol está cheio de casos em que as camisolas mais pesadas foram derrotadas pelos terylenes mais lights. As camisolas não ganham — é outra das frases feitas que recorrentemente se podem sacar da cartola (outra)

Vi os dois jogos deste ciclo e penso que o problema desta selecção é simultaneamente conjuntural e estrutural. E no vértice de ambos, uma pessoa. A pessoa que assumiu que a culpa é dele. Porque efectivamente é.

Luis Felipe Scolari tem a obrigação de proteger os jogadores e está a deixar que Reinaldo, ups, Ronaldo se exponha demais. Tem assistido impávido e sereno à colocação de toda a carga em cima dos ombros do jogador. Ronaldo é um poço de força e admiro a sua resistência, mas numa equipa não há — pelo menos desde que sigo bola, há trinta anos — um salvador de serviço. Podemos até ter um ou dois ou mais jogadores que cumprem esse papel, mas não é aceitável deixar que a pressão e a expectativa se concentrem em figuras.

Uma equipa é também isso: uma forma de diluir a pressão sobre cada um dos indivíduos que a compõem.

Luis Felipe Scolari tem a obrigação de detectar os pontos fracos e trabalhá-los. Um dos pontos fracos visíveis é a incapacidade de concentração. Ninguém parece estar em campo. Distraídos, absortos, passam longos períodos em que não se vêem uns aos outros.

Perder dois pontos nos últimos dois minutos de um jogo e repetir a dose poucos dias depois…

Não dou para o peditório da qualidade dos jogadores. A qualidade dos jogadores é uma fraca medida para avaliar o desempenho de uma selecção a este nível (é menos má no caso de um clube). Lembro-me de uma geração (como também se diz) fabulosa que não venceu nada por razões conjunturais (falta de cultura de vitória nos seus clubes de origem, fundamentalmente). A geração anterior à actual, a tal de Riade, dos Figos e Ruis Costas, era bastante desiquilibrada mas tinha o que faltava à sua antecessora: ambição, carisma e auto-confiança. Talvez até demais, nalguns casos.

A actual geração tem os predicados da anterior: elementos com magia (em excesso, eventualmente), carregadores de pianos, líderes de campo experientes, guerreiros de muitas batalhas.

Onde está então o problema?

Na estrutura. Entregar a despesa da responsabilidade a Reinaldo ignorando jogadores como Deco é um erro estrutural. Mesmo que seja a pedido do jovem, que é um entusiasta, gosta de se superar, e julga que é o novo Figo (ainda não é, falta-lhe perder, amargar, desiludir, errar, para crescer), é um erro. Ronaldo resolve, Ronaldo diverte, Ronaldo encanta. Mas Ronaldo não sabe (ainda pelo menos) ler e pautar o jogo para comandar as tropas. Penso, aliás, ser evidente que não há ali tropas dispostas a dar tudo pelo seu general.

No anterior ciclo Scolari, ele próprio um general, tinha um ajudante de campo fabuloso pelo carisma, Figo. Neste, deu as estrelas cedo demais a um jogador que não fez a “academia” nem tem “sofrimentos de guerra”.

( Há outras questões estruturais relativas ao posicionamento dos jogadores, mas isto não é um tratado. )

Na conjuntura. O vedetismo é um cancro que sempre afecta em maior ou menor grau as equipas que se alimentam de (e alimentam os) valores essencialmente imateriais, como é o caso de uma selecção. A actual selecção tem muitos jogadores de grande projecção que não estão a ser capazes — talvez por falta de exemplo na liderança — de ir à selecção “equalizarem-se” mutuamente.

Scolari escalonou uma selecção de jogadores e Portugal não tem uma equipa de futebol, não alcança um todo maior que as partes, nem sequer consegue somar as partes. O erro começa no treinador e — isto sim, é um surpresa — precisamente no que ele de melhor tinha quando chegou a Portugal: a capacidade de motivação e superação e o carisma.

Scolari aparentemente amoleceu. O castigo foi perder a margem de erro. Agora, está condenado a ganhar. Talvez seja a única forma de ganhar esta equipa: sujeitá-la a uma terapia de choque. É uma estratégia arriscada.