Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

18 de julho de 2007

Campus Party: breve radiografia de um duplo fracasso

A Minho Campus Party, uma alternativa marcada para Braga, também já foi cancelada, tal como a Campus Party Portugal antes dela. O problema do duplo fracasso não está tanto na boa vontade das organizações — embora essa boa vontade possa ser prejudicial quando as pessoas agem sobretudo em função do seu whisful thinking e não da experiência que manifestamente deviam ter adquirido… — mas sim nas mudanças estruturais verificadas no mercado nos últimos três anos.

Sim. É fundamental partir daqui: a última organização de um evento com estas características — genérico, dirigido a um público heterogéneo e massificado, com um forte apelo à partilha e condições únicas de largura de banda para as trocas entre computadores — fora em 2004. Há três anos. Nesses três anos o panorama mudou radicalmente: a banda larga generalizou-se e a partilha evoluiu da troca de ficheiros para a web 2.0, com os seus blogues, fotoblogues e web-serviços de convívio. O público afunilou. Isto é: torna-se mais complicado organizar um evento de massas, e ao mesmo tempo ganham relevo os eventos dirigidos a públicos específicos.

Hoje, realizam-se diversas lan parties que congregram as duas tribos mais importantes da “antiga” Campus Party, os jogadores de jogos multi-uilizador, multi-plataforma, e os apaixonados da informática, os hackers. Estas, sobretudo a primeira, eram o corpo essencial da campus party minhota. Mas estas “profissionalizaram-se” e hoje escolhem os eventos não em função do seu tamanho mas em função do putativo retorno. As condições e os prémios destes eventos especializados superam o que o evento generalista foi capaz de oferecer.

Erros de promoção (mentira, nenhuma campus anterior foi tão promovida como esta), as mudanças do mercado (acima descritas sucintamente), e a localização (um pequeno problema), são detalhes que não escamoteiam o essencial: até ser quase demasiado tarde, a organização agiu sempre em função de um discurso optimista e totalmente irreal, que tranquilizava toda a gente com um número de inscrições imaginário.

Na sua tentativa de “limpar a imagem”, o professor da Universidade do Minho que se tornou ao longo dos anos no pivô das campus parties acabou por chamar a atenção também do público para ele próprio. Depois dos envolvidos nas duas organizações (Batalha e Braga) julgo que já toda a gente percebeu que Eduardo Beira foi mais parte do problema que da solução. Na web 2.0 é preciso mais que boa vontade para triunfar.

(Outros textos sobre o assunto: Campus Party volta ao Minho, Portugal Campus Party foi cancelada)