Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

6 de agosto de 2005

Carta aberta ao Secretário-geral do Partido Socialista

Caro José Sócrates, vou ser breve.

É assim: se o PS insistir em secundar a peregrina ideia da candidatura de Mário Soares e deixar o louco do homem ir até às urnas, não me deixa outra alternativa senão a de tirar o pó de duas décadas ao cartão de eleitor e voltar a usá-lo como da última vez: engolindo um sapo.

Os tempos (e Portugal, já agora) mudaram bués desde 1986. Na altura havia um fantasma na sociedade portuguesa e milhares de eleitores elegeram Mário Soares contra o fantasma. O “presidente de todos os portugueses”, como a si próprio se chamou na noite das eleições não deixando aos “portugueses” outra alternativa senão concordar, passou dois mandatos a chatear toda a gente, mas na altura o país precisava de um gajo que chateasse. Agora não precisa de um chato a fazer as vezes de presidente, precisa de alguém que colabore porque os tempos estão mesmo super-difíceis para quem tem de governar este barco de malucos a que insistem em chamar Portugal.

Eu não me conformo com o que Mário Soares fez ultimamente. Eu acho que a política portuguesa não está ameaçada como em 1986, pelo que não precisa de um “salvador”. E certamente dispensa, nesta fase de delicadeza democrática, um homem que gosta mais do poder que todos nós de {auto-censurado}.

Eu não gosto nem um bocadinho do candidato rival, Cavaco Silva. Sou dos que não lhe perdoa ter feito tão pouco com tanto que teve (e que nunca ninguém teve, o que lhe vale o actual cartel). Será desagradável (mas ironicamente justo, devemos admitir) ver o país representado por um homem sem chama, desprovido de criatividade e aparentemente incapaz de exibir a paixão que pode mobilizar os cidadãos. Mas mais vale Cavaco que dar a Mário Soares mais uma hipótese de mandar no país como manda na casa dele, no clã dele, na corte dele, nos amigos dele e mandou no partido dele.

Por isso, caro José Sócrates, veja lá no que se mete, ao seu Governo e a Portugal. Ainda está a tempo: retire. Antes retirar agora, e arranjar um candidato (sugiro Manuel Alegre) que represente o seu partido dignamente (mesmo que para perder), do que insistir numa aspirina pontual que alivia a sua dor de cabeça actual mas não cura o cancro governativo ou a sida nacional, pelo contrário.

Um abraço

PS: a minha humilde opinião não contará para o seu Euromilhões, mas olhe que há mais gente, muita gente no país a pensar como eu. E, ao contrário de mim, a maior parte dela onde dói: à esquerda.