Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

4 de outubro de 2005

Cavaco: o vazio profundo

CAVACO: O VAZIO PROFUNDO. Manuel Alegre entrevistado na SIC Notícias. Ouço sem surpresa, confirmo e anoto, com um suspiro de alívio: a passagem à segunda volta é um dado adquirido e com ele a esquerda salva a face perdendo honrosamente na segunda volta. Soares teve as câmaras, a telegenia e o discurso cativante — mas já perdeu, naturalmente. Alegre tem as câmaras, a telegenia (e façam o favor de se lembrar que mais de metade do eleitorado é composto por mulheres) e o discurso posicionado.

Com Alegre as eleições ganham outro aspecto: ver por quantos é capaz de ganhar Cavaco, quanto vale ele realmente, como homem, subtraído o partido.

Se fosse contra Soares, poderia Cavaco continuar mudo ou falar à vontade, como lhe aprouvesse, porque Soares faz tanto ruído que ninguém lhe prestaria atenção (felizmente para ele.) Como sempre (e exclusivamente), Cavaco não brilha, apaga-se; Cavaco não fala, usa o silêncio; Cavaco não se mexe ou posiciona, deixa o adversário colocar-se a jeito.

Mas contra Alegre, quanto mais Cavaco abrir a boca pior para ele, por contraste; e não poderá remeter-se ao silêncio porque Alegre não ocupa o espaço mediático como uma rainha, imagem a que Soares habituou o país e que tanto jeito deu para encobrir os crassos erros com que o cavaquismo comprometeu este país. Calar-se contra Alegre é deixar o país a ouvir o seu ensurdecedor silêncio.

Com Alegre, Cavaco terá de ir ao jogo. Terá de abrir a boca e dizer o que pensa para este país. O que pensa do país, não do seu governo: presidir é um desígnio radicalmente diferente de governar. E quanto mais abrir a boca, mais se cavará a óbvia diferença para Alegre.

Cavaco ganha, penso (ainda). Ganha porque soube gerir o tempo. Não me restam dúvidas que num quadro sem estas autárquicas no próximo domingo, Cavaco não disporia de tempo suficiente para disfarçar o vazio profundo. Com que os portugueses vão viver nos próximos cinco anos.