Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

26 de outubro de 2006

Cintra Torres e a propaganda

Eduardo Cintra Torres decidiu “abrir o livro” sobre as técnicas da nova propaganda. Montou a bazuca na sua coluna do Público, o “jornal da oposição”, e tem conversado nos blogs, nomeadamente com o Manuel Pinto no Jornalismo e Comunicação. Uma resposta correcta.

O problema com Cintra Torres é que de nova a sua temática nada tem.

1. O tema da instrumentalização dos orgãos de comunicação social do Estado é mais antigo que a democracia ela própria.

2. Nos últimos 30 anos nenhum Governo, de qualquer tamanho e duração, sem excepções, escapou a repetidas acusações de interferência ou pressão (ou ambas) sobretudo na RTP e na Lusa; RDP e, quando os havia, jornais propriedade do Estado também levaram pela medida grossa, mas é evidente que é a RTP o alvo preferencial.

3. Ao longo destas três décadas foi mudando a origem das “denúncias” e a emissão dos “factos” consoante mudou o partido no Governo.

4. Para citar um clássico recente, há menos de dois anos o Governo PSD era sistematicamente acusado de ter uma central de propaganda e de “instrumentalização” do Diário de Notícias — o mesmo jornal que menos de dois anos volvidos é acusado de ser o “jornal do Governo” PS. O encarregado da altura, Morais Sarmento, fez o que lhe competia garantido não ser verdade (centrais e mais que tais aqui).

A haver uma nova propaganda, e eu não estou agora a afirmar que a há, ela estaria no novo meio de comunicação de massas. Um meio sem controlo, nem sequer mecanismos básicos de conferência de autoria, mas um meio fascinante e, juram os que nele habitam, lido avidamente nas Redacções dos “outros” meios. Um meio onde todos podemos dizer tudo o que no apetece ou calha em conspiração ocasional, com a impunidade garantida pelo imediatismo que tritura luxos como a credibilidade e dá a personalidade, a capacidade argumentativa ou mesmo o apelido dos conversantes como penhor da verdade. Estaria no meio novo e sem escrutínio que vive a momentânea utopia da auto-regulação, nunca nos meios velhos, legalizados e regulados por cima, pelos lados — e agora também por baixo, o que só lhes está a fazer bem.