Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

15 de setembro de 2006

Com seus amores tão indelicados (act.)

Quando não discorre sobre temas que não domina ou, se preferirmos (e eu prefiro), quando escreve sobre assuntos de que entende porque tem experiência e conhecimento, Eduardo Pitta consegue aqui e ali arrancar-me um aceno concordante. Às vezes, dois.

A sua série no Da literatura sobre o Bairro Alto é recomendável — pelas palavras próprias e pelas citações. O Bairro dele não coincide bem com o meu, embora haja zonas de intersecção. Mas o tema do Bairro — que é por direito próprio recorrente dada a ligação centenária com as artes e os artistas e as gravilhas e públicos respectivos — regressa à blogosfera. De uma maneira reflectiva e com algum distanciamento, se bem interpretei Pitta. Mais apaixonada nos outros casos.

O meu caso é muito de encolher de ombros. A sujidade é igualmente recorrente — embora tenha por vantagem ser lavável.

Eu conheci o Bairro dos anos 70, da Diário de Notícias com cem vespertinos às costas à tosta no 69 da Barroca, trabalhei no Bairro dos 80, no roteiro Diário Popular, Mário, senhor João, SW 135, desiludi-me no Bairro dos 90, sabor Hernâni, Três Pastorinhos, Majong, Café Suave, Arroz Doce, Estádio, e janto quinzenalmente no Bairro deste século. Eu vivi na orla do Bairro a subir meia rua ajudado pelo elevador da Bica, vivi na zona calma do Bairro para lá da rua do Século — a do Snob, que com o Frágil atravessou as minhas décadas de BA –, vivi no Bairro do ímpar talho da esquina da Travessa da Queimada com a Rua da Rosa, no Bairro das casas de banho lotadas, no único Bairro que se revesa em três turnos, 24 horas por dia, no Bairro da tarde suspensa no toque da campaínha da escola da Luz Soriano simbolizando a mudança para o febril turno pós-escolar, os gritos da miudaria sobrepõem-se ao silêncio sonolento e desde esse insustentável instante as ruas não pararão de fervilhar até as gargantes desisirem ou o “combustível” acabar (which comes first) e tudo for embrulhado, pardo, no fumo do gasóleo das carrinhas do pão, símbolo do turno madrugadeiro, no Bairro do Frágil (três gerações de porteiros), no Bairro dos restaurantes iluminados à pinha nas noites de sexta-feira e sábado, noites de plumas e champanhe e cocaína e saltos altos e muitas, muitas lantejoulas das mais variadas faunas cinematográfica, teatral, gay, revisteira, alta burguesia em festa (horripilante de olhos a sair fora das estupefacientes órbitas), estrangeira, you name it.

Sujo? Sempre foi sujo. Decadente? Sempre foi mau. Mas sempre foi um ímane, ou vários ímanes para outras tantas tribos, das chics às lúmpen.

É local que não deixa saudades. (Só conheço uma pessoa, o Luís Marques, que gostava de lá viver e julgo que ainda vive no seu quarto andar superior ao barulho. Superior a tudo, como a maior parte dos habitantes vulgares, que até isso o Bairro tem.)

Ninguém gosta de recordar o que por lá viveu porque em geral vivem-se se lá coisas que se gastam. Gostam mas gastam.

Não me deixo resvalar para considerações fáceis como as apressadamente citadas na Estação Central desfazendo “no meu tempo é que era bom”. Não é esse o ponto. Cada um deixa-se atraiçoar como quiser pelas suas memórias. o Bairro nunca era (pretérito imperfeito) bom mas é (presente do indicativo) bom. Desconfio que o Bairro Alto é igual a si próprio desde que existe. Pelo menos está igual desde que tenho memórias dele, e não me refiro às minhas mas às da geração de jornalistas e boémios que me abria as portas da profissão de dia e dos antros à noite. E mesmo essas já vinham de antes, eram as memórias dos mais antigos que lhes ensinaram as tipografias clandestinas e os números das portas dos bordéis.

A diferença que sinto hoje, quando vou a restaurantes de anos e anos, é apenas uma — e não são os copos de plástico ou a porcaria nas ruas (esta muito pior nos 70). A diferença é que hoje não estaciono à porta do sítio onde vá.

Acualização: o João Gonçalves tem no Portugal dos pequeninos um notável texto de cujo sentido discordo (ele é mais o género “no meu tempo é que era” e aquilo foi “invadido pelas hordas”, esquecendo-se que a geração anterior disse o mesmo quando o Frágil abriu) mas que nem por isso deixa de ser notável. Pela pintura que tece do Bairro (e mais abaixo, não apenas geograficamente): o bairro dos pequeninos.