Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de janeiro de 2007

Como isto é tão fácil

Os bloggers são, como se sabe, especialistas em climatologia estando sempre prontos a denunciar mais um facto contra a tese do aquecimento global. A tarefa sai facilitada porque, como no atletismo, há sempre um novo recorde a ser batido algures no mundo, nem que seja por razões fortuitas.

Assim, se o ano que passou é o mais quente de que há memória e tal não encaixa na nossa reputação blogueira, é sempre possível encontrar um outro fenómeno qualquer, único no seu género e que desminta a desagradável tese. Por exemplo, pode-se sempre desmentir que o ano de 2006 foi o mais quente nos EUA: basta procurar um estudo qualquer e apresentá-lo como prova. Ou nem isso, bem vistas as coisas, que desperdício de tempo: basta malhar na comunicação social, que como se sabe é composta por analfabetos, de esquerda, vendidos, ignorantes e que fazem o jogo dos governos (de esquerda) e promovem as ONGs (de esquerda, de defesa do ambiente, das minorias e de tudo o que mexa e dê um bom post). Porque, como se sabe, os bloggers são peritos em jornalistas. É uma inerência de género e ninguém pode discutir isso, ponto final parágrafo.

Este género de recordes é um filão inesgotável. Se este ano voltar a ser o ano mais quente que há memória nos EUA é sempre possível que, por razões totalmente fortuitas e alheias ao aquecimento global, não o seja num território de dimensão similar, por exemplo na Sibéria, na Europa Ocidental, na China, na Índia, na Antártida, no Ártico, no Atlântico Norte, na Austrália, no Índico, em África, no Pacífico Sul, no Pacífico Norte … E se for batido um recorde de temperatura média anual, talvez não seja batido um outro recorde meteorológico qualquer.

Quem sabe? Por exemplo o Verão mais quente, ou o Verão mais frio, ou o outono mais chuvoso, ou a primavera com menos neve ou com mais neve, ou o ano em que a água do Atlântico esteve mais quente, ou o ano com mais furacões, ou… Existem centenas de categorias e milhares de combinações entre elas que tornam praticamente impossível que este ano, e o próximo, e o outro a seguir não sejam o mais qualquer coisa dos últimos 50 anos. Existem milhares de estudos científicos elaborados por estudantes, professores e bolseiros das universidades de três mundos, e basta pegar na enfiada de números que der mais jeito à nossa tese, embrulhá-la num post e fingir que se é uma autoridade. A realidade é tão complexa e as formas de a medir e olhar tão diversas, e o tempo de análise tão curto que o “conhecimento” se resume, hoje, a uma questão de confiança nas fontes. Dito de forma mais simples: é uma questão de fé.

Bjorn Lomborg precisou de um único livro para o provar.

Leiam-no e apliquem. Resulta seja em que campo for.