Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

4 de setembro de 2006

Como pode um jornal assim servir de exemplo?

Ao contrário do Daniel Oliveira, eu até gostei d’O Independente. Não “adorei”, não achei o máximo e não lia ávida e tolamente, convencido de estar perante um grande exemplo de jornalismo. Não estava. Mais: estava perante um mau exemplo de jornalismo. Palavras do Daniel certeiras e com as quais concordo, como de resto com o tom geral do post, feita a ressalva do gosto:

Reconheço que deu novo fôlego à investigação – ainda assim, quase sempre a investigação dependente do recado das fontes, a investigação de telefonema. Mas “O Independente” sempre teve o hábito de não ouvir a parte contrária, de estar mal preparado para defender as suas manchetes e de não tratar nenhum assunto com profundidade” (em Arrastão)

Só em Portugal, país com o péssimo hábito de reservar os elogios para os defuntos, se pode apontar como exemplo um jornal que manipulava os textos valorizando notoriamente uns factos e desvalorizando outros. Um jornal cuja direcção usava a redacção como um instrumento de conquista de poder pessoal. Um jornal que subordinava abertamente a investigação jornalística à sua imagem e vendas. Um jornal que remexia o lixo, remexendo em exclusivo o lixo do Governo. Com a única finalidade de o diminuir, não de abrir as portas ao escrutínio da sociedade. A agenda d’O Independente não passava pela deontologia e código jornalísticos mas coincidia com a agenda política do seu director, de alguns dos seus editores (atrelados ao projecto pela via politizante) e com as aspirações de alguns dos seus investidores e sustentáculos financeiros, oriundos do espaço do qual restam, hoje, pungentes espectros como Pedro Ferraz da Costa.

Agora é fácil, e todos o fizeram, dizer que estava morto há muito, que não foi agora, dourando a pílula à última direcção, de Inês Serra Lopes. Mas com isso escamoteia-se que O Independente foi sempre um jornal com mau jornalismo. Só vendeu enquanto produto comunicacional porque arrasava um Governo que tinha um primeiro ministro (que, aqui só para nós, se punha muito a jeito…). Foi admirado – e ainda hoje é, com toda a legitimidade, note-se – por ter tido a coragem de fazer a vida negra ao Governo.

Ou alguém (que se lembre do jornal e da época) tem dúvidas sobre a proveniência os 100.000 compradores? Alguém admite que aquele produto, naquela ou noutra época, tivesse obtido sucesso comercial, reconhecimento entre pares e notoriedade pública se não fosse (o ataque a) Cavaco? Seriam as coisas boas do Indy (abaixo descritas) suficientes para dar ao projecto todo o lastro que permitiu ao título sobreviver até Setembro de 2006?

O Independente trouxe, é bom que se diga, aspectos positivos para a imprensa portuguesa. Um deles? O seu militantismo de direita foi uma lufada contra a corrente. Foi pel’O Independente, e não pelo Expresso, que pude ler (que o país pode ler!) analistas de direita moderna (aqui por oposição à direita conotada com o antigo regime, a única visível até então) e admirar talentos como José Júdice (hoje arrasta-se pela pantalha na noite da má língua, da SIC).

Outros deles: a inovação formal e gráfica, a entrevista pessoal, até então feita apenas timidamente no Se7e (redacção onde Miguel Esteves Cardoso debutou), o ensaio em versão moderna, ou light, que era alternativa ao Jornal de Letras. Sim – tudo “conquistas” do caderno 3, o caderno cultural d’O Independente de Miguel Esteves Cardoso, depurado depois na K., a revista que MEC lançou no interim entre director e sub-director e onde, Vasco Pulido Valente à cabeça, reuniu o melhor que O Independente alguma vez teve.

A K. representa o melhor que a geração MEC e a direita-Targus deram à Imprensa portuguesa e é admissível como exemplo. Não O Independente.

(Nota: parte da K. está na rede sob o formato blog. Aqui. Notável trabalho de recuperação em digital, pesquisável, de uma parte importante da cultura portuguesa em liberdade)