Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

19 de julho de 2007

O que faltou dizer sobre a abstenção, a "crise" do sistema e a "urgente renovação"

Será que as eleições intercalares para a Câmara Municipal de Lisboa provam que existe uma “crise crescente” (5 Dias) da representação no sistema político português?

Podemos realmente garantir que o nível anormalmente alto de abstenção se deve a uma falta de confiança dos eleitores nos partidos, que “dominam” a democracia representativa?

Estarão realmente os partidos em crise, e com eles a democracia?

As perguntas chovem no espaço público. A uns, dá jeito. Para outros, é uma questão de honra. A outros, ainda, é o que gostam de fazer. Mas não tenho ilusões sobre a instrumentalização do assunto pela parte dos opinion-shapers.

Eu também tenho um exercício. De há muito tempo (sei situar: desde que li Treblinka, aos 13 anos). Consiste em procurar outro ângulo.

Neste caso, consiste em fazer a seguinte pergunta: mesmo que nos dê imenso jeito por esta ou aquela razão, e encaixe como uma luva no dedo apontado ao “sistema”, será legítimo comparar os limões destas eleições completamente atípicas com as laranjas dos níveis de abstenção através dos tempos?

Suspeito que se compararmos (não o fiz por falta de meios) os números de Lisboa com outra eleição 1) intercalar, 2) autárquica, 3) no Verão ou pelo menos num período tradicional de férias, 4) provocada por uma decisão de um só partido e no mínimo discutível, e 5) com mais de uma dúzia de candidatos de todas as cores e feitos a concurso, alguns dos quais desconhecidos, encontraremos níveis de abstenção idênticos e porventura mais elevados. (Algum leitor com mais tempo nestas férias quererá tirar a teima e aprofundar o estudo? Eu publico. )

Mas ninguém comparou. Primeiro, porque é à partida complicado encontrar na história da democracia portuguesa um cenário que seja, mesmo que remotamente, parecido com o destas intercalares. Que, como o “povo” muito bem sabe, não contam para nenhum totobola e em primeiro lugar nem deviam ter existido (vox populi, eu não me meto nisso). Se formos buscar, de cabeça, os números de outras eleições que também não elejem directamente políticos e políticas, as Europeias, os números aproximam-se. Mas — claro — é mais fácil abanar a concordante cabecinha: sim sim, o “povo” está em processo de divórcio com “os políticos”; sim sim, há uma crise do “sistema”; sim sim, é um aviso; sim sim, os políticos deviam mudar os processos e vir discutir para onde “as pessoas” estão (na web, that is).

Ya: eu curtia bués, tipo, ver os gajos, tipo, no Hi5 a falar com o ppl tipo a sacar votos, que cena!… meu, tipo, ya.

O problema, temo bem, é que esta conversa não é para levar a sério. Dentro de menos de dois anos, quando se perspectivar de novo a luta pelo poder que conta (o de governar o país), “povo”, “elites”, eleitos e eleitores esquecem tudo. Misteriosamente (ou talvez não) a crise esvanece-se, a discussão partidária toma conta dos cafés e, assim haja dois ou três candidatos “bons”, é até capaz de, a espaços, se sobrepôr à conversa em torno do último golo anulado ao Benfica, a democracia passa a respirar saúde e em havendo dois projectos apelativos em confronto real, o povo corre às urnas e os comentaristas, satisfeitos, falam em “exemplo da cidadania”. O doutor Portas sai da pensativa reclusão (isto é: perde a vergonha e volta-se para os holofotes) e reinicia o périplo pelas feiras & mercados com as câmaras assestadas, os assessores do doutor Mendes e do Primeiro-Ministro José Sócrates multiplicam os telefonemas das “fontes internas” a dar grandes “cachas” que não passam de bluffs e vapor, os comentaristas profissionais e amadores (a esmagadora maioria dos bloggers) afadigam-se a ver quem saca mais depressa da frase que virá nas colunas de citações do DN (terminação) ou na manchete do Público (sorte grande) e essa coisa da “crise” do “sistema” democrático e dos partidos nem para fantasma servirá, e até Roseta e os outros serão reduzidos à sua condição de figurantes decorativos.

Aliás, nem é preciso esperar tanto para os ver mudar a agulha: bastou Marques Mendes ameaçar provocar eleições mais cedo no partido. Toca a engendrar esquemas, a ver se se consegue forjar um candidato que lhe ganhe e prepare o PSD para um combate digno na próximas legislativas. Partido, liderança, concelhias, estratégia, barões, tutela cavaquista, o que fará “a Manela” e “agora é que o Borges entrava bem” e que dirá domingo o professor Marcelo, Pacheco Pereira a afadigar-se para sacar citações na Imprensa nacional e regional e convém não esquecer a Paula Teixeira da Cruz, que é muito inteligente e… — o “é preciso repensar o papel dos partidos” e “a crise do sistema democrático” duraram quanto, 48 horas?

Boa.

Nada como o cheiro do poder.

Encontrem lá os outros limões, se querem continuar uma conversa seria sobre o problema da abstenção. Sem eles, continuamos a farsa do unanimismo que tanto jeito nos dá.