Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

22 de maio de 2007

Comunicação social: entre a patetice e o mercado

O “controlo governamental” dos meios de comunicação social é uma patetice cuja repetição poderia provocar dano não viesse de quem vem. Simplesmente, a “tese” carece de fundamentação, como ficou cabalmente demonstrado no rescaldo das “pressões” no caso Independente. Na galeria das patetices junta-se à da peregrina ideia de que os jornais “são de esquerda”, essa propagada pela cadeia de repetição dos excitados blogues dos “vivas!” a isto e “morras!” àquilo. Nunca foi produzido um único documento com pés e cabeça que permitisse avaliar a justeza de tal “pensamento”.

A última atoarda é mero fogo de artifício atirado para o ar para distrair a populaça da invisibilidade do PSD em matéria de regime democrático: o partido já nem tenta disfarçar a desorientação que o entorpece e se há claustrofobia democrática, ela deve-se à falta de comparência a jogo do que deveria ser o principal partido da oposição, rarefazendo o debate e deixando o palco aos snippers, e não a um partido que vai a eleições em Lisboa com dois candidatos e duas listas que recrutaram figuras de outras latitudes e interessaram para a coisa pública pessoas sem ligação aos partidos.

Ao contrário, os sinais da crescente hostilidade ao Governo dos meios privados, a que Vital Moreira alude no post invencionices, no Causa nossa, são notórios. Foram notados na sequência da OPA falhada sobre a PT pelos mais insuspeitos analistas. Os realinhamentos editoriais que se seguiram à OPA e à venda do Diário de Notícias, eventualmente num cenário de antecipação da guerra entre lobos pela PT Multimedia, são perceptíveis até por pessoas desligadas dos assuntos dos meios. A compra da TVI pela Prisa suscitou uma maré de expectativa sobre… que alinhamento viria a televisão a ter, o que prova que a isenção é um conceito muito interessante.

Por cada telefonema de um ministro para um jornalista a pressionar ou a “tentar controlar” quantas notícias (ou impedimento delas) são ganhas sob a forma de sugestões, aliciamentos, pressões?

O aumento da precaridade de vínculo e de outras doenças das políticas de emprego conquistadas pelo mercado são enfraquecedoras da independência. Estou seguro de que afectam muito mais um jornalista do que as hipotéticas simpatias partidárias.

Para o bem e para o mal, a comunicação social portuguesa reflecte muito mais (e cada vez mais) a realidade do alinhamento económico dos títulos do que as trivialidades ideológicas. A força do mercado dita uma lei de “voz do dono” até certo ponto indesejada e indesejável, mas passada a turbulência dos jogos económicos ocorrerá uma depuração e um punhado de títulos alcandorar-se-á a níveis de “pureza jornalística” decentes, quando não mesmo elevados. Por uma razão muito simples: há lugar no mercado para o bom jornalismo — e um lugar bem recompensado.

O que o que resta da blogosfera histórica, sempre pronta para apontar o dedo ao poder político, não faz — e devia — é tornar alvos do seu inefável escrutínio (também) os poderes económicos privados. Mandam, comandam, infuenciam. São responsáveis — mas gozam de uma imerecida folga na atenção pública, reduzida aos mínimos legais.