Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

14 de novembro de 2005

Contra-demagogia

CONTRA-DEMAGOGIA. O assunto França presta-se muito à demagogia. E, se não se importam os meus 23 leitores, à contra-demagogia. Pessoalmente acho que o assunto merece menos interpretações apocalípticas e mais bastonada pura e simples. É uma questão de ordem pública, não uma revolução em marcha. A questão é antiga, pois claro que é. Não foi resolvida, pois claro que não. Mas imagine o leitor, por dez segundos, que é o esforçado papá de um daqueles adolescentes.

Emigrou há 25 anos em busca de uma vida decente e esforça-se 10 ou 12 horas por dia a trabalhar para pagar o apartamento de merda que conseguiu arranjar com muito esforço. O seu ocioso e inútil filho tem crescido a vê-lo esfalfar-se a troco de tão pouco (para ele) e o futuro que se abre à frente dele revela uma vida igualzinha de esforço, sacrifício e miséria. Inflamado, incendia uns carros. A moda pega e torna-se isso, uma moda de adolescentes ociosos, acossados e sem futuro. «Onde vamos esta noite? Ora, descobri um bairro onde tem menos chuis, bute lá!».

Você, pai. Se puder, dá uns tabefes no puto. Se não puder, encolhe os ombros. Mas: arma uma caldeirada à pala disso? Está claro que não. Você quer é ir trabalhar no dia seguinte, foda-se, alguem tem de pagar a porcaria do apartamento e as prestações do carrito. Ah, claro, não esquecer as Adidas do puto reguila, os blusões Nike (ou Armani, conforme os gostos do rapaz sejam mais ou menos Zidane) e o pocket money sem o qual o rapaz não tem aceitabilidade social.

As análises politizadas do assunto não conduzem a lado nenhum, não passando elas próprias de uma distracção. De ociosos burgueses, mas uma distracção.

Gosto muito mais de ler autores directos onde dói, aos erros que vimos acumulando há “ciclos políticos” consecutivos: «os beneficiários dos carros a arder são outros. Porque enquanto as classes médias estiverem preocupadas em proteger-se das classes que estão abaixo delas, pensam menos em proteger-se das que estão acima». (in Tempo dos Assassinos)

O post Modelos de integração e fugas, no BdE, teve uma sequência de comentários nada edificantes por um lado (chamar alguem de canalha fere de morte o que dissermos a seguir, no caso infelizmente porque o que se disse seria interessante), mas por outro bastante corajosos — comentários e post –, bastante contra a demagógica corrente dominante.