Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

4 de outubro de 2004

Credibilidade e anonimato

Merece aturada leitura o texto do Provedor do Público Contar com Os Blogues. Joaquim Furtado parte de exemplos da blogosfera (e cita cuidadosamente os respectivos blogues), nomeadamente um em que informação foi reproduzida a partir de um blogue que não foi citado. A jornalista (Isabel Braga) afirmou que «nunca foi sua intenção “ocultar” [aspas de Joaquim Furtado] a origem das informações» e diz que citou o blogue numa segunda notícia porque «achei que era justo».

Isabel Braga interroga-se: «que é que se faz com uma informação lida num blogue? Não se sabendo quem são os seus autores, faz-se o mesmo que se faz com uma informação anónima, recebida pelo telefone, ouvida na mercearia, no metro, numa esquina: se se considerar relevante, investiga-se e se se verifica que é verdadeira publica-se. Foi o que eu fiz, investiguei, confirmei e publiquei”».

Joaquim Furtado parte para uma análise e conclui o que é natural: «a experiência é ainda escassa para encontrar, ou até para procurar, novos códigos. Os blogues não são todos iguais. Uns (assinados por nomes conhecidos da vida pública) serão mais credíveis, ou até responsabilizáveis, do que outros. Mas se ambos podem ser – porque, pelos vistos, são cada vez mais – fonte para os jornalistas, então não se vê que não sejam citados como tal, uma vez feito o trabalho de confirmação, indispensável para os blogues como para outras fontes.».

Estou de acordo, não vejo porque não hão-de ser citados como tal. É óbvio. Mas isto não é suficiente.

Além de verificar a veracidade do que lera no Do Portugal Profundo Isabel Braga podia (e em minha opinião deveria ter começado por aí) ter tentado comunicar com o(s) autor(es) da informação. O referido blogue não é um blogue anónimo. Tem assinatura e contacto por correio electrónico. Apesar disso Isabel Braga remeteu o blogue para a categoria da dica ouvida numa mercearia.

Agora vou discordar de Joaquim Furtado ou pelo menos discutir o significado que atribui ao termo “anónimo”. A figura da “fonte anónima” sempre existiu nos Orgãos de Comunicação Social (OCS). Os blogues não inventaram o anonimato. Nem sequer a Internet. O que esta trouxe, e sobretudo desde que temos blogues, foi a rapidez de circulação da informação. Tipicamente uma fonte anónima é uma fonte que deseja permanecer no anonimato. Fornece informações nessa condição. É muitas vezes a única forma de publicar notícias, acreditem. No caso citado, a fonte não é anónima. Pode a jornalista não a ter considerado credível por a não reconhecer e, como nos casos de dicas anónimas enviadas por carta e fax ou telefonadas para uma Redacção, envidar esforços para confirmar a veracidade da informação.

Credível, podia não ser para a jornalista para quem a blogosfera equivale à mercearia, mas anónima é que a fonte não era. O blogue está identificado e o seu autor poderá até esconder-se num nome falso (não estou a afirmar que o faz, apenas coloco a hipótese) mas tem uma forma de contacto. Não é um fulano que mandou uma carta sem remetente para o jornal. Não é uma pessoa ouvida numa mecearia, cujo rasto se perde na esquina. Isabel Braga não mencionou nenhum esforço para contactar a fonte original da informação que, uma vez verificada por outros meios, publicou no seu jornal. A menos que à data da leitura do blogue o endereço de correio a.b.caldeira@sapo.pt não estivesse disponível — o que Isabel Braga não disse.

Percebo o princípio da análise de Joaquim Furtado mas acho que é um mau princípio. Tirados os paninhos quentes, ele escreveu isto: ser um nome conhecido da vida pública fornece mais credibilidade e responsabilização do que não ser um nome conhecido da vida pública. Pode ainda deduzir-se da leitura que só deixa o anonimato quem ascende a figura pública.

É claro que os blogues não são todos iguais. Mas partir para o seu consumo escudado no princípio de que apenas os assinados por figuras públicas são crediveis e responsáveis é um erro — além de uma rudeza de educação (para ficarmos na decência da linguagem) para com os respeitáveis cidadãos que editam os seus blogues e assinam muitos com nome completo e mais ainda com nicks igualmente respeitáveis e reconhecidos.

Um erro e uma marginalização com consequências graves de uma fatia significativa dos autores e blogues.

Agora outra coisa. Na blogosfera o anonimato é vulgarmente uma defesa do autor, que deseja publicar sem que isso signifique expôr a sua privacidade. [Nem todos nós procuramos os cinco minutos de fama.] O tom intimista dos blogues ajuda a essa escolha. Muitos, uma vez conhecidos os cantos à casa, acabam por assumir a identidade nos seus blogues. Outros, uma minoria, não.

O anonimato não significa cobardia — embora alguns cobardes anónimos o usem para tentar insultar e denegrir terceiros.

O anonimato não significa irresponsabilidade ou inimputabilidade — apesar de alguns cobardes anónimos o usarem irresponsavelmente.

O anonimato merece respeito — sim, apesar de com isso termos de levar com as diatribes de alguns cobardes anónimos. Pensem nos outros, nos milhares de casos em que só em condições de anonimato puderam ser denunciados escândalos e tiranias e mortandades.

A credibilidade não tem uma relação directa com o anonimato ou a assinatura. A credibilidade é outra coisa. Um jornalista é um profissional treinado para reconhecer sinais de credibilidade numa informação prestada seja por quem for. Mesmo (sobretudo?) por um dirigente governamental. Com o tempo muitos bloggers e consumidores de informação na web adquirem esse treino em quantidades diferentes. Com o tempo aprendemos a separar as fontes mais credíveis das menos credíveis numa escala de valores que tem muito de pessoal, claro, mas também muito de consensual, partilhável pela comunidade.

Como a reputação, a credibilidade constrói-se. Na web como no resto. Há figuras públicas sem credibilidade, ou de baixa credibilidade. E há figuras anónimas (não públicas) de credibilidade comprovada. Por vezes ao longo de anos. Há milhares de bloggers credíveis e respeitados apesar de ninguém os conhecer em carne e osso ou de nome. Aqui Furtado observa bem: «a experiência [dos jornalistas] é ainda escassa para encontrar, ou até para procurar, novos códigos». Que lhes permitam reconhecer as fontes mais e menos credíveis da blogosfera. [Observação: o ónus da inexperiência deve recair sobre o jornalista e não sobre as eventuais fontes. Não foi o caso.]

A credibilidade constrói-se através da repetição, no tempo, de informações sérias e relevantes e de opiniões certeiras. Não se constrói com um feliz mas episódico tiro na mouche. E muito menos fornecendo regularmente informação falsa, deturpada ou inquinada (como é vezeiro na política e na economia, prosseguindo estratégias privadas).

A acabar: um nick, ou pseudónimo, tem o mesmo valor de um nome. É uma assinatura. Identifica aquela pessoa. Na Internet como na vida (quantos “jet-sets” são conhecidos pelos seus diminuitivos familiares? Quem sabe o verdadeira nome de Babá Pita?). José Pacheco Pereira é quase mais reconhecido na Internet (e pelos internautas nas conversas informais em ocasiões sociais) pelas iniciais JPP e até por Abrupto do que pelo seu nome — esteja ou não ele ciente disso, esteja ou não ele disposto a conceder à assinatura JPP foros de nick oficial.

Quem acha que se refugia atrás de um nick, esqueça. Mais tarde ou mais cedo confronta-se com a reputação desse mesmo nick.

No início da vivência online dizia-se a propósito do anonimato que supostamente caracterizaria estas paragens: na Internet ninguém sabe que tu és um cão. Pouco tempo foi necessário para se perceber que, pelo contrário, os nossos passos digitais deixam rastos e marcas a vários níveis, o principal dos quais a esfera comum de diálogo, a comunidade. A frase pode então ser reformulada mantendo o seu humor inicial: na Internet todos sabem que tu és um cão.

Podem não te reconhecer na rua, mas aqui sabem quem tu és. Cão ou não.