Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

27 de julho de 2007

Crise no PSD e CDS: purga ou refundação, o dilema da direita

É desconcertante verificar a forma como alguns intelectuais, entre eles Vasco Pulido Valente, se têm ultimamente referido à crise política que, consta, tem origem nos partidos e no facto destes serem — com excepção do PCP — inconsistentes, sem relação com as bases.

O facto de se tratar de gente ligada à História torna o caso ainda mais suspeito.

Parece-me incontroverso ser o Partido Comunista Português um caso específico, pela perseverança e pela “cosedura” entre o partido e as bases, tecida no tempo em que era preciso esconder os “filhos do povo” dos “polícias do regime”. Ideologia quanto baste, história quanto baste, carisma quanto baste — segredo para a manutenção de uma base de aderentes suficiente para ir andando mas não para crescer.

Daí para a frente… justos céus. Colocar o Partido Socialista ao nível do Partido Social Democrata e do Centro Democrático Social parece-me mais uma manobra para fazer passar a ideia — na minha opinião, errada — de que a crise da direita é maior que a direita.

Não é.

E que há uma crise ao nível do próprio sistema partidário. Não há. O que há é uma crise ao nível do sub-sistema partidário da direita portuguesa. A esquerda has been there, done that, see?

E que há uma crise nas democracias ocidentais. Essa ao menos há. Felizmente. Enquanto continuar é bom sinal, é sinal que as instituições continuam a funcionar e com elas a economia. Tenho um medo danado de que a nossa boa velha amiga crise democrática se fine. Mas aponto isso lá para as calendas da falta do petróleo, não me parece que menos que isso — e a falta de uma alternativa a Marques Mendes parece-me seguramente menos que isso — possa abanar o edifício.

A crise dos partidos (a única, a da direita) em seis pontos.

1. As “semelhanças”

O PS, hoje, mantém uma plêiade de figuras históricas que atravessaram o espaço político português ao longo de quatro décadas — incluindo portanto uma parte da Primavera marcelista (psst, ó jovem, é antes do 25 de Abril). De Mário Soares a Almeida Santos passando por Manuel Alegre, o partido esticou e encolheu ao longo desses 40 anos, várias vezes, com crises externas e convulsões internas. Dentro e fora do poder, mais fora do que dentro.

No último período de travessia do deserto — dez anos durou o cavaquismo, remember? — o PS minguou bastante, mas ninguém desertou. Pelo contrário, nesse período forjou-se a nova geração de “falcões” (embora com alguma dificuldade em usar a palavra quando me refiro ao cordato António Vitorino), aquela que hoje está no poder — nos poderes — para o que der e vier. Está e recomenda-se — o que significará, entre outras ilações possíveis, que não é má de todo.

O Partido Socialista arregaçou as mangas e de dentro das suas fileiras saíram novos ombros para puxar a mesma rede.

Vestem Armani vermelho desbotado e aqui e ali fazem mais o jogo do capital que o próprio PSD? Seja. O pragmatismo deixou de ser um luxo ou uma feature e passou a ser essencial para a governação (e para o caminho até ela). Os tempos mudam. Ou por outra, tendo em conta o PS (e, aqui ao lado, o PSOE, tão parecido): os tempos evoluem.

Ao longo dos últimos 30 anos, perdido sem o corpo ideológico que Sá Carneiro não chegou a imprimir nos livros do partido, o PSD tem uma história demasiado diferente da do PS para poder falar-se dos dois partidos como farinha do mesmo saco. É uma história de combates de chefes, de “barões” e respectivos séquitos, que assaltaram os castelos dos poderes. Assalto ao poder, um chapéu que também se enfia às hostes socialistas — mas essas não andavam ao capricho dos barões. Nem os “chefes” retiraram para as prateleiras douradas do sector privado, em “fugas” cuidadosamente (ou estrategicamente) preparadas nos ministérios — como sucedeu com demasiadas figuras, figurões e figurantes do PSD.

Demasiadas por isto: deixaram o partido exangue. Não são dois notáveis (Manuela Ferreira Leite e Marcelo Rebelo de Sousa) e dois históricos (Eurico de Melo e Pinto Balsemão) que podem dar lastro a um partido incapaz de gerar quadros no seu interior.

A história do PSD em três décadas é a história da repartição dos cargos de todos os tamanhos existentes no aparelho de Estado e nas suas margens, das autarquias aos organismos, sindicatos e institutos.

O “programa” do PSD resume-se a isto: chegar ao Governo, apertar o garrote dos impostos às classes médias e privatizar o mais possível, excepto o indispensável para sustentar o seu próprio clientelismo.

No PSD, quando a conversa pende para a ideologia, o barão que tiver o azar de estar no palanque nesse desconfortante momento invoca o “legado” de Sá Carneiro, pisca o olho à câmara, a plateia comove-se e — uff — venha o ponto seguinte da agenda.

A excepção, por mais incrível que pareça, é Santana Lopes. Calma, não é por ter uma ideologia. É por todos temerem que ele leve o partido ao encontro de uma, a caminho do Largo do Caldas (ou num prédio alugado a meio caminho, veremos adiante).

O PCP tem militantes. O PS tem bases, que mantêm o partido vivo ou vegetativo, consoante esteja na oposição ou no poder, e uma ligação à sociedade civil que lhe permite o luxo de recrutar com alguma facilidade ministros e secretários de Estado (Novas Fronteiras foi o empurrão decisivo para as últimas legislativas). O PSD deu a impressão de ter bases, nos anos 80 e 90 (auge do piquenicão do Pontal que, diz a lenda, marcava a rentrée depois dos banhos e das sardinhadas). Certamente, uma ilusão de óptica: tirando um ou outro deputado para trabalhar nas comissões, não se lhe conhece uma figura de primeiro ou mesmo segundo plano forjada no pós-cavaquismo. O melhor que tinham, e que vinha em trajecto ascendente ainda ao tempo de Cavaco, passou como um meteoro pela liderança (do partido e do Governo) e chegou à Presidência da Comissão da União Europeia.

2. O mesmo ou mais do mesmo: faites vos jeux

O relato (eu quase escrevi: a história, mas não chega a tal) da presente “crise” do PSD resume laconicamente as minhas duas últimas frases: Marques Mendes sucederá a Marques Mendes com uma figura local a ajudar a parecer que houve eleições, isto tudo porque já nem há barões no PSD — essa é que é a dolorosa verdade do partido.

Se um imponderável acontecer e Filipe Menezes suceder a Marques Mendes, não virá daí mal ao mundo. Suspeito, aliás, que poderia vir algum bem. Não é certo que um bom autarca dê num bom governante e os melhores governantes do PSD dispensaram ao exame autárquico, mas Gaia está melhor, até eu vejo, que não vivo lá (mas tenho lá passado inolvidáveis momentos, ultimamente…)

No entanto, penso que Menezes não tem perfil para outra coisa que não um líder de transição. Mais do mesmo, portanto. Não é “a” solução para o problema laranja.

O PSD vive refém da sociedade civil. Evidentemente, quando esta pressentir o cheiro do fim da governação de Sócrates, começará a mexer-se e com o que houver na altura “faz” um Governo. Com sorte, encontra um Cavaco. Com azar… sabe-se lá.

O PS claro que também precisa da sociedade civil para chegar ao poder, mas não vive refém dela: tem os seus próprios meios de subsistência — e que meios! Ainda não cheirava a poder e foram a jogo três candidatos-candidatos (não estamos a falar de figurantes para eleições internas). É o partido democrático mais pujante, seja qual for o prisma por que olhem para a palavra.

3. Mais “semelhanças”

Não compreender as, ou passar por cima das, diferenças realmente existentes ao nível do core dos dois grandes partidos portugueses, não me parece uma boa atitude. Nem sequer razoável.

Numa frase dura: melhor ou pior, o PS já está no século XXI das incertezas enquanto o PSD continua no século XX à espera de um improvável líder iluminado.

Noutra frase dura: ainda andam à procura do próximo no PSD e no PS já discutem informalmente qual dos próximos na forja irá avançar quando Sócrates cair (Costa, Vitorino, Seguro, to name just a few).

Numa frase ainda pior: o partido que é o PS está naturalmente em estado de descanso, com “os seus” ocupados no Governo. Always happens. O esforço de Marques Mendes que é o PSD está anormalmente em estado catatónico, sem ninguém para manter os músculos em funcionamento e fazer oposição.

Confundir os estados dos dois aparelhos partidários como se fossem o mesmo estado, não parece lógico à primeira vista. É melhor pensarmos duas vezes sobre isso — ou ficamos realmente confundidos.

4. O erro de casting

Quanto ao CDS… francamente: é um erro de casting na farsa “A Crise do Sistema”. Podemos contudo vê-lo num papel secundário do épico por estrear, quem sabe ainda nesta saison: “Purga ou Refundação? O dilema da Direita”.

O seu inestimável contributo para a liderança do país foi dado no passado por um punhado de homens acima da média em termos políticos que, mais ou menos romanticamente, saltavam para cima de um palanque real ou figurado (mediático) e levavam a sua tribo atrás, umas vezes maior, outras vezes mais pequena, mas nunca muito grande.

Depois, ou seja, nos últimos 15 anos o CDS tentou desesperadamente “modernizar-se” — o que é um tremendo disparate, que o pode levar à clandestinidade nas próximas legislativas. A Extraordinária Boa Vontade dos Deuses dos Sociais Democratas, somada a O Bug Incomprensível Que Afectou O Universo, deixaram Paulo Portas chegar a ministro. O que ainda alimentou os sonhos centristas e adiou o desfecho previsível desde Monteiro.

(Outra singela, minúscula eu diria, diferença entre o CDS e os outros dois: o CDS nunca foi um partido de poder, só chegou ao poder quando isso deu jeito a um dos partidos de poder.)

5. Sai um PRD para a direita!

A lição que tardou: a direita não se moderniza, é contra-natura. Purga-se ou refunda-se.

Com Lucas Pires e Sá Carneiro vivos mais tempo, tudo seria diferente hoje — incluindo algum efeito no PS, estou em crer. Mas sem eles a direita portuguesa exibível, ou legal, ficou uma amálgama incaracterística e espartilhada. Ao centro, o PSD ocupa toda a faixa moderada. À direita, os extremistas salazarentos já morreram ou sobrevivem enfiados em websites de troca de cromos onde — muito louvavelmente — mantêm a “chama”; porém, cada vez que se tira mais um bocado ao fantasma aumenta na inversa o pesadelo do CDS: um pequeno partido urbano, do mundo de hoje com pessoas de hoje, com ideologia e demagogia quanto bastem para capturar os eleitores descontentes com o “sistema” (desculpem e tal: o BE da direita, mas menos fino, por enquanto, e mais raquítico, é verdade). Sem essas uma ou duas almas em cada cem, o CDS sai do clube parlamentar — o que num certo sentido é útil em geral e um alívio para o PSD.

Não sei se o actual movimento à direita do CDS terá a força telúrica de um PRD para purgar a direita portuguesa, ou se ocorrerá logo uma refundação. Lá vem ele novamente: Santana Lopes. Se não o calam promovendo-o a barão de pleno direito numa cerimónia com passadeira vermelha debruada a ouro, basta-lhe rasgar o cartão de sócio e estabelecer-se por conta própria numa sociedade 70-30 com Paulo Portas — et voilá, acaba-se a “crise dos partidos” e o “divórcio com a sociedade”, eufemismos para o grave estado de inanição a que PSD e CDS deixaram chegar os seus tecidos, quase tão grave quanto era o estado do PS há quatro anos.

Com um PNR, um CDS, um SL-PP e um PSD, as fileiras de desempregados ideológicos que hoje, à falta de melhor, se abrigam debaixo do variado, multi-colorido e descredibilizado guarda-chuva do liberalismo depressa afluirão à landing race, obrigando de uma forma ou de outra à injecção de sangue novo de que o PSD necessita com carácter de urgência.

6. Post-scriptum

Espera-se que a “direita sociológica” não alimente a ilusão dos “independentes”. A “política 2.0″ não tem a ver com uma espécie de user-generated politics. Em períodos longos de estabilidade democrática os independentes são invariavelmente figuras históricas ou poderosas que se zangam e deslocam do centro para uma das faixas, levantando no movimento alguma poeira. Nenhum quer realmente formar um partido ou uma “alternativa”, querem que lhes dêem a atenção que julgam não ter ou querem incomodar alguém.

Até nisso, não há o mínimo paralelismo entre os independentes do PS — Alegre e Roseta, nenhum quis cindir nada e ambos acabaram a reforçar a consistência do eleitorado rosa — e os independentes do PSD. Carmona Rodrigues independente valia virtualmente zero, Carmona ganhou com uma máquina partidária, Carmona foi segundo apoiado pelo combi dos que entretanto ganharam lealdades a cumprir e dos que quiseram agitar o PSD de Mendes. Carmona foi sempre um instrumento e nunca um músico.

Já Santana Lopes, quando ensaia o papel de independente está a condicionar as cúpulas e a sobressaltar os históricos. Santana vale alguma coisa: o suficiente para partir o PSD em dois (embora de tamanhos bem diferentes). E não se fará rogado: é ainda novo, não se dá bem na privada e a vida dele foi passada a fazer política. Dêem-lhe um pretexto, o reino dele por um pretexto.