Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

24 de novembro de 2006

Cultura, antes pelo contrário

Francisco José Viegas tem na Origem das Espécies três notáveis posts (um, dois, três) sobre cultura, ou por outra, sobre os milhões e a arte da queixa — é um facto, a arte da queixa é muito efectiva e vai de um lado ao outro do espectro, ou seja, dos que se queixam de o guito do Estado ser pouco e dos que se queixam de o Estado dar demais, o que mais ouço é gente aos berros, que falta de cultura!

Concordo que FJV tem razão por exemplo nisto, como notou e subscreve o Carlos Araújo Alves no Ideias Soltas, não há escassez de oferta. Deserto de programação cultural, cada um fala no que quer. Depende do que é “programação cultural”. Eu, por exemplo, vou reivindicar a ausência de um programa sobre cibercultura e geekismo, pois é evidentemente uma gravíssima lacuna na programação dos canais pagos com o meu rico dinheirinho, e nos outros também porque beneficiam indirectamente dos meus impostos e eu QUERO tanto como os outros, também tenho direito à minha cultura!

Há realmente muita coisa a acontecer. Como escreveu José Viegas, «leiam os jornais, os boletins municipais, os blogs, os sites, tudo isso. Não me lixem.» A ignorância é uma coisa feia. Ou então não é ignorância, é manipulação. Com ou sem má fé. Eu já estou habituado a ver manipulação, então nos blogs de referência nem se fala. A diferença entre manipulação e opinião é difícil de ver e de apontar, mas que a há, há.

Há aliás coisas a mais. Como espectador pouco frequente do É a Cultura Estúpido! sempre me impressionou a fraquíssima adesão do público, ainda para mais porque não se tratava propriamente de sessões desinteressantes com desconhecidos e não publicitadas. 60 pessoas nos picos, umas 25 a 35 em média, isto digo eu que calculo por cima. Faz hoje uma semana visitei, visitámos, o museu da Fundação Arpad Szenes / Vieira da Silva e éramos as duas únicas almas pagantes no edifício. Ultimamente fomos ao encerramento de duas exposições (é o nosso lado português, ou antes, o meu, que a Ana é arrastada, chegar antes do fecho) e ambas tinham público em bom número, mas precisamente por isso, porque toda a gente foi no último dia, e porque era fim de semana.

Eu acho que há oferta a mais. Ainda bem — prova que as políticas do Estado desde Abril de 74 tiveram algum sucesso, foram na globalidade positivas.

Entendo também que o dinheiro do Estado não tem de ser cortado ou aumentado, está é mal distribuído. Não vem daí grande mal ao mundo e ainda menos à cultura: quem verdadeiramente quer fazer alguma coisa e tem unhas para isso, como é o caso (diria, exemplar) de Francisco José Viegas na Casa Fernando Pessoa, faz com ou sem verbas, seja qual for o tamanho das ditas. Quem não tem unhas, bem, pelo menos vai tendo emprego e com que estar entretido.

Entendo ainda que o debate sobre o que fazer com o dinheiro do Estado-mecenas das artes é um debate inútil porque inquinado: quem o faz limitar-se exclusivamente a pedir para si, ou a pedir contra alguém. Como todos os debates apaixonados, é engraçado de ver, todos ficam contentes, mas não leva a lado nenhum.

Entendo ainda que o sistema de subsídio tem efectivamente um grave defeito, que não é o dinheiro a mais ou a menos. Gera, gerou e sempre gerará clientelas e dependentes. Por vezes (caso de Portugal, anos 70 e 80) é a única política possível. Mas é muito difícil perceber o ponto em que se passa a um estado de coisas onde há alternativas. Estaremos num desses pontos?

Este é o meu debate.