Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de fevereiro de 2005

Da irrelevância estatística

Escrevi um comentário-resposta a MatosB, no atuleirus, e depois de reflectir achei que valia a pena a promoção a post. Fica abaixo, mas não deixem de ler o que o engatilhou aqui.

Um blogue é uma coisa simples. Poderosa? Eventualmente. Se o autor souber usar a palavra (ou a imagem) e tiver alguma coisa de novo / de especial / de interessante para dizer aos outros, pode ter um blogue (ou parte de um) poderoso.

Nisso o blogue é revolucionário: veio permitir a livre expressão individual em jeito de mass media a muitos mais milhões de indivíduos do que até aqui qualquer tecnologia (conjunto delas) fizera.

Mas só nisso. Não posso dar para os peditórios do e-cidadão e da e-cultura, enquanto novos paradigmas de civilização, pelo simples motivo de termos ainda tão pouca gente capaz de se expressar devidamente pelos blogues. Na mais simpática das hipóteses temos 0,1 por cento da população mundial a editorar blogues e talvez 0,5 por cento a lê-los. É o que se pode chamar uma minoria estatisticamente irrelevante. Logo, como acreditar nalguma “revolução” levada a cabo por tão mínima e irrelevante minoria?

Mesmo num país tecnologicamente avançado como os EUA as percentagens continuam a ser irrelevâncias estatísticas — sobretudo se consideramos que não reflectem de todo as quotas sociais das várias populações que constituem os Estados Unidos.

Compreendo os excessos de entusiasmo dos catedráticos americanos (suponho, caro MatosB, que se referia a cidadãos dos EUA e não ao subcontinente da América do Norte como um todo). Mas penso que estamos muito longe da pretensão de “dar Internet” ao povo e obter com isso um povo “educado” e “participativo” e até “cultural”, seja lá isso da cultura o que for.

As firewalls, caro MatosB, tem toda a razão: temos tantas firewalls ainda, e em coisas básicas como a água…

Os blogues serão um contra-poder de elite. A influência dos blogues na sociedade só se consegue medir na forma como a elite-leitora recebe a elite-editora. Tragam o microscópio!