Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

12 de setembro de 2005

Da poeira dos arquivos

Retiro à poeira dos arquivos e requento no micro-ondas da nostalgia o seguinte naco de prosa, aviada em 1999 para um livro do Centro Atlântico (O futuro da Internet)

«Só vi um aparelho de televisão aos cinco anos, quando o meu pai comprou o primeiro para atrair os clientes ao restaurante familiar. A mãe da minha filha, nascida em Moçambique, só teve televisão já adolescente, quando veio para Portugal. Aprendi a ler pelo extinto Século, religiosa e diariamente comprado lá para o restaurante familiar. Estávamos nos meados de 60. Lembro-me do choque maravilhoso que senti quando aportei a Lisboa no início dos 80, para fazer a minha vida. Os autocarros –- os antigos laranjas, hoje em processo acelerado de substituição por placards publicitários ambulantes –- pareciam saidinhos das fotografias do suplemento de fim-de-semana do Século, onde se falava dos transportes do Futuro! Pareciam? ERAM exactamente os mesmos! Os projectos futuristas transformam-se em relíquias do passado. É uma das funções do Tempo.

Mas o choque mudou a minha vida.

Ainda me lembro de, nas minhas discussões adolescentes, noctívagas e intelectuais com os amigos, discorrermos sobre os computadores. O tom da época era genericamente o seguinte, saidinho das leituras de George Orwell e sobretudo – pela súbita e pontual fraternidade envolvida em LSD – Aldus Huxley: os computadores iriam dominar, primeiro e subjugar, finalmente, a raça humana.

Já a trabalhar nos jornais e em Lisboa comprei o primeiro dos três Spectrum que tive. O poder do computador ao seu alcance era o título do anúncio promocional. Estou mesmo a visualizar a primeira página do extinto Se7e, com o anúncio no canto inferior direito se a memória me não atraiçoa.

Assim que corri os meus primeiros progamas em BASIC rapidamente se produziu na minha mente um salto quântico. 1984, Admirável Mundo Novo e Regresso ao Admirável Mundo Novo – e mais a metade condizente da minha estimável colecção Argonauta – foram sofregamente relidos à luz da nova innervision. Era o poder do computador ao MEU alcance. As imagens do primado dos computadores sobre os humanos foram recatalogadas na pasta Tretas. Como os filmes de Disney, serviam para deslumbrar os incautos e assustar os parolos. Funções de pura e simples diversão.

Desde então venho repetindo até à exaustão da frase, ao ponto de ela se me ter tornado automática e indolor: o computador é apenas mais uma da extensa lista de ferramentas criadas pelo Homem para tornar o trabalho mais fácil. E variações sobre o tema.

Já circulava correio electrónico na rede hoje imortalizada como Internet, mas estava fora do meu alcance. A evolução natural fez-me conectar-me pela primeira vez já nos finais de 80. Eram as primeiras BBS e um servidor internacional chamado CompuServe. Foi aí que tive a minha primeira conta, um algarismo de nove dígitos que não ficou para a História.

Fui porteiro da Internet, como me chamou uma vez José Magalhães. Um dos primeiros porteiros em Portugal. Mas a tarefa não era para a minha pequena sociedade de amigos: a Telepac chegou e levou tudo.

Reduzi-me à minha tarefa de jornalista. Um cronista da nova mudança. Mas um cronista passado para o outro lado. Às tantas já não sei bem se pertenço mais à nova cultura em formação e que ajudo modestamente a formar, ou à velha, cada vez mais desinteressante.

Mas mesmo que esteja mais lá do que cá uma coisa é certa: serei um naturalizado, na melhor das hipóteses, porque o País Digital é o país dos vossos filhos.

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