Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

28 de junho de 2006

De Espanha bons ventos, bons casamentos e bons negócios

Embora discorde da leitura pró-regionalista com que Rui Curado Silva fecha o post, gostei de ler no Klepsýdra o Espanha/Portugal: o contrário do Abrupto. Também a leitura das cartas a JPP, as que estão publicadas evidentemente, é duplamente útil: revela os bons exemplos de uma atitude que começa a ter visibilidade na sociedade portuguesa e permite lançar um debate “público” (entre aspas porque a blogosfera é cada vez mais um território privado, um micro-cosmos não-representativo sequer da elite do pais quanto mais da sua pirâmide social) sobre as relações ibéricas.

O divórcio com o “país vizinho” terá as raízes históricas mas hoje é uma separação sem o mínimo sentido. Geograficamente (que é o que mais interessa na política regional, a que Bruxelas deixa aos indígenas) não há dois países (ou, se quiserem, 17+1 “reinos” ou regiões autónomas) mas sim um único, a Ibéria, com assuntos ambientais indissociavelmente interligados, economias de escala territoriais óbvias para o capital e os negócios e falas de raiz comum. (A cultura, felizmente para todos, é diversamente rica na Ibéria.)

As viagens nessa terra chamada Ibéria que o Rui vos convida a fazer são elucidativas: Portugal (pensem país e não família real e corte privilegiada) teria pouco a perder e muito mais a ganhar numa hipotética reescrita da História que eliminasse 1640. Apesar dos temores da política externa portuguesa (partilhados, de resto pelo autor do Abrupto), nunca os regionalismos espanhóis prejudicaram aqui o luso rectângulo. O luso rectângulo, quando muito, é que frustrou as populações autonómicas junto da raia, às quais tem sucessivamente voltado as costas. Mesmo que fosse para uma simples ajudinha à cultura galega ou cooperar no combate à seca com pastores e agricultores extremenhos e andaluzes.

Sou um iberista, é claro que sou. Cada vez mais convicto, na exacta proporção em que sou crescentemente europeísta e, na razão inversa, cada vez menos nacionalista. Preferia filha e enteados a estudar em Madrid em vez de os inscrever nas deprimentes universidades lusas. Não concebo hoje nenhum projecto ou (tentativa de) plano de negócio sujeito às fronteiras (físicas e culturais).

Como tal, gostaria de ver — dos dois lados dessa linha imaginária — o debate alastrar, saudável, para além das causas macro ou micro desta nossa cada vez mais pequenina blogosfera.