Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

2 de setembro de 2006

Deixar de fumar é binário

Na verdade nem dei por passar uma efeméride convidativa a celebração: o dia certo em que fumei o último cigarro. Sei que foi algures no Verão de 2005 – fez portanto um ano por estes dias.

Deixar de fumar nem é fácil nem é difícil – não admira que tanto possamos ler crónicas de estarrecer sobre a força do vício, como plumitivas descrições sobre a força de vontade que arrasa montanhas. Deixar de fumar é simples. É binário. Quer-se ou não se quer. Quer-se mesmo ou não se quer mesmo. Está-se farto ou enjoado ou doente, ou não se está farto ou enjoado ou doente. Usam-se produtos químicos ou não se usam produtos químicos (uma discussão parecida com o debate entre evolucionistas e criacionistas, tão apaixonante quanto irrisória tendo em conta os participantes).

Deixar de fumar não é como fazer dieta ou ir para a natação. Se pensa que o faz para se imaginar (ou mesmo ficar!) mais saudável, nunca deixará de fumar, sucedendo-lhe o que sucede na esmagadora maioria dos casos comparativos: cinco dias (no máximo) depois a cervejinha ou o chocolate fazem valer os seus pergaminhos convidando o regresso dos gramas esforçadamente perdidos entretanto, ou o seu corpo farta-se de pretender que é um atleta e nem usa as aulas pagas até ao fim do mês.

Além de que é mentira, essa de que o desporto dá saúde. Não dá. Na melhor das hipóteses, dá bem estar espiritual e tónus muscular. Com azar, dá em luxações, tendinites, corpo consumido antes do prazo de validade. Se tiver mesmo muito azar, pode chegar ao ataque cardíaco.

Há desportistas que fumam e são saudáveis, há sedentários que fumam e morrem aos cem anos (de cigarro numa mão e cerveja na outra desafiando as frases feitas), há desportistas que não fumam e morrem cedo, há sempre uma história para contar e uma estatística para “fundamentar”.

Lembre-se: deixar de fumar é binário, sim ou não. Os “esforços” não contam. Você não se esforça por largar o tabaco e depois soçobra, fraco, nos braços da nicotina embalado pelo alcatrão…

Não.

Se se esforçar, vai dar-se mal. Esforçar significa que na realidade você não quer parar de fumar, é um pretencioso, um fingido, está a enganar alguém (o cônjuge geralmente), fez uma promessa que não pode cumprir. Ou está apenas a enganar-se a si próprio (está no seu direito e sobretudo não magoa nem desilude outrem, é apenas um tolo).

Você não se esforça: você simplesmente não fuma, ponto final parágrafo e não se fala mais nisso.

Deixar de fumar é binário. Somos capazes ou não somos capazes.

Deixar de fumar é radical. Não se faz um intervalo – seja de cinco semanas ou cinco anos.

Deixar de fumar é uma atitude. Regra geral é preciso muita coragem para tomar uma atitude, qualquer atitude, deixar de ter um cigarro por companhia / desculpa / pose não passa de uma atitude (calem-se as matracas “científicas”, a dependência da nicotina não é nada comparada com as dependências da alma e da vanitas).

Se quer deixar de fumar, não procure conselhos no Google.

Não peça conselhos a ninguém.

A menos que seja para intendências como passarem-lhe as pastilhas ou colarem os adesivos, não peça ajuda: é uma tarefa que ou faz sozinho ou nem vale a pena dar-se ao trabalho.

Faça.

Tome uma atitude. Mude. Mude-se.

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Dito isto com toda a clareza, podemos avançar. Eu quando decidi (mesmo) fiz assim: farmácia comigo, perguntas curtas, clínicas, directas. Pastilhas elásticas, percebo a finalidade (ajudar ao vício de boca) mas não é para este filho de Maria: raramente as mastigo e certamente que não desceria ao ridículo de mascar por todo o lado. Adesivos, boa. Limpos, ao contrário das pastilhas. Fáceis, é só espetar no peito ou nas costas (a marca que usei, Nicotinell, encerra-os dentro de umas embalagens difíceis de abrir mas suponho que outras marcas terão corrigido o defeito). São eficazes? São, diz o farmacêutico. Quando se fala de determinada maneira com os farmacêuticos, são de total confiança. Conheço um que experimenta tudo nele próprio antes de recomendar aos clientes.

Foram duas caixas e meia. Quero lá saber: teria pago cinco, se fosse necessário.

As compensações por deixar de fumar são muitas. Mas seria como contar o final de um filme. Engordei dois quilitos? Sim. Mas que preço tão barato para em troca não me cansar tão facilmente antes de, pronto, isso.

Há quem escolha outras formas e métodos. Claro. Leia-as todas várias vezes se for caso, não lhe fará mal algum. Risque “ajudar”, mas a leitura pode inspirar alguém para encontrar / escolher o seu próprio método. Eu escolhi os adesivos porque a terapia de substituição tem em geral bons resultados e é prática e eu quero lá saber dos princípios existenciais sobre as “drogas substitutas”, sei é que com a ajuda dos adesivos foi bastante fácil resolver o problema da nicotina, que é o menor, mas dá um jeitão uma pessoa não ter de levar com mais essa.

Ganhe balanço. Filosofe. Não é uma questão de “força de vontade”, de “esforço”, de “combater a dependência”, de “fazer-lhe a vontade”, de “ganhar a aposta” – em suma, de brilhar (para isso um cigarro entre os dedos tem mais charme).

Ou quer, ou não quer.

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Quando é que uma pessoa sabe que deixou realmente de fumar?

Esta é difícil. Eu simplesmente soube. Já tinha tentado antes, uma vez estive quase três semanas, foi bom, aliviou, mas eu sabia que não deixava coisa nenhuma. Era um intervalo. Umas férias, um alívio.

Nada contra: faz bem, seja como for.

Há umas teorias, eu próprio as professei, sobre os tempos: mês e meio a dois meses para um empedernido (ninguém que fume menos de um maço por dia alguma vez falará em “largar o vício”, está na curva ascendente da dependência, toma-se por “controlado”) andar a mudar adesivos diariamente até perceber que o ímpeto deixou de lá estar, a mola afrouxou. Avança, inseguro, pelo mundo dos cheiros e dos sabores. É como uma criança que aprende a andar, ou pelo menos usei essa imagem para descrever o que sentia, embora avise que é caricatural, é exagerar os traços.

Até aos três meses contamos o tempo, nervosos e felizes. E eu escrevo no plural porque recentemente um amigo de décadas tomou a decisão e trilhou um caminho muito parecido com o meu — e olhem que o Rui está longe de ser o que se poderia apresentar socialmente como um exemplo de “força de vontade” ou um indómito corajoso.

Até aos seis meses temos, ou eu pelo menos tinha, a consciência de quão ténue é este tipo de triunfo de uma parte de nós sobre outra. Em qualquer altura, intui-se, um acontecimento banal, um gesto de alguém que fuma, uma cena num filme, o azul do fumo a esvair-se — e quebramos. Eu tinha essa consciência.

A partir dos seis meses, barreira psicológica, lá está, a segurança aumenta. A passos largos (a mesma imagem).

Há quem diga (um amigo meu que deixou de fumar há muitos anos corrobora) que antes de uns três anos ninguém se pode considerar um ex-fumador. Admito. Eu não me considero um ex-fumador. Eu sei que deixei de fumar (e sim, há uma diferença nesse itálico). Soube-o por volta dos quatro ou cinco meses. Hoje sei-o mais convictamente, se tal coisa se pode dizer.

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Finalizo: não é com “força de vontade” nem com produtos nem com abstinência forçada. Deixar de fumar é tomar uma atitude. Nem moralizo sobre a atitude “certa” ou “correcta” ou “saudável”, não é um juízo. É apenas uma atitude de vida que se muda porque se quer mudar quando se quer mudar.