Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

8 de julho de 2005

Directamente do baú

Ele há coisas que nos trazem uma lagrimita ao canto do olho… Como (ainda!) desenterrar o baú do web.archive.org uma prosa que marcava a diferença em 1996, ainda não havia blogues mas já discutíamos um bocado em páginas pessoais, onde fazíamos aquilo que hoje se chama “opinião”. Saudosistas, ler a continuação.

O meu encontro com Nicholas Negroponte

Cena 1. São 13:15. O homem senta-se.

Petisca um pãozinho. Espera que o buffet se esvazie. 13:20. Levanta-se.

O prato fica quase deserto. Petisca raros átomos. Mas a mente vagueia

no digital. 13:35. Levanta-se de novo, acena ao chefe dos organizadores

e diz: «às 14:30 na sala». O outro confirma com um aceno. Nicholas Negroponte

vai até ao seu quarto. Provavelmente checar a mail-box. 14:30.

Profissionalismo à prova de sono. O homem reenceta o discurso. O tal

discurso que já chateia uns, mas que outros pagam centena e meia para

ouvir. 15:30. O chefe dos organizadores avisa: «esta é a última pergunta, os átomos de Nicholas Negroponte vão ter de se ausentar». Pergunta da audiência. Resposta do guru. «Peço desculpa, mas os meus átomos têm de estar num aeroporto daqui a uma hora. Adeus».

Cena 2.

São 15:35 e estamos na rua. Abre-se a porta do BMW. Não sinto coisa

alguma, apesar de estar a apertar a mão ao homem mais famoso do

planeta, logo a seguir ao Deus Bill (cuja mão também já apertei, o que

faz de mim um português raro). Deuses, deuses. Estamos prestes a

iniciar a mais famosa e polémica entrevista dos últimos meses:

represento o único media autorizado a abeirar-se de Nicholas Negroponte.

Para trás ficaram vários colegas e amigos, barrados pelos porteiros do

Instituto Superior de Transportes. Toni, Sarah, Gonçalo, não vos

deixarei ficar mal!

Cena 3.

O Jorge Nascimento Rodrigues aperta-lhe a mão e lembra uma entrevista

que lhe fez. Por mail, claro. Tenta uma nesga de calor humano. Népia. O

Ser Digital só se atinge no éter. Volta à carga lembrando-lhe que

também assina a coluna no Expresso, repetida com mês e meio de atraso

face à Wired, compromissos contratuais. O homem lembra-se lá. Isso é

com o sindicato. Ele só fala e escreve. A metro. E recebe. Ao quilo.

Dígitos numa conta bancária digital.

Cena 4.

Eu aperto por minha vez a mão do homem. Anuncio-me. Digo-lhe: li

praticamente todas as suas prosas na Wired. Li o Being Digital,

primeira edição no original Inglês americano. Estive em Boston, sede do

Media Lab. O homem abre a boca e articula pela primeira vez uma frase

não-monossilábica: «Então porque estamos aqui?». é a assumpção pelo visado de uma verdade há muito insuspeita na comunidade: Nicholas Negroponte

já deu o seu contributo para a Revolução Digital. Está tudo escrito.

Agora, como confirmará ao longo da entrevista (que pode ler aqui

em versão integral, se não leu o caderno XXI do Expresso de 23 de

Novembro, pág 8 e 9), é um homem de negócios e um respondedor

automático de e-mail. Além de editor de si próprio (50 mil dólares por

conferência, preço de tabela, eventuais interessados contactem Nicholas Negroponte). Para quê dar uma entrevista, se eu sei tudo sobre ele? Merda.

Cena 5.

Ataco-o dizendo que a ciber-rapaziada está careca dele, quem o ouve são

os novatos e os info-pobres. Porque ele é um bom simplificador, traduz

bits e packets em linguagem de gente pobre. Eu trabalho para um meio

dirigido sobretudo a novatos e info-pobres, a ciber-rapaziada pouco me

lê (e goza a simplicidade do que lê, como é natural). Tenho de lhes

indicar caminhos. Locais. Gente. Ele. Justificada a entrevista, ele

responde. «Os hackers – suponho que trata neste mesmo saco todos nós, reais hackers e vulgar ciber-rapaziada-estabelecida – deviam ouvir mais as questões das pessoas recém-chegadas à Net».

Touché. Mesmo a dormir, touché. (O homem esteve no dia anterior a dar

na cabeça da malta da Wired, onde – confirmou-me off record – é

accionista de peso. Eu julgava que ele só tinha meia dúzia de acções,

tipo Miguel Esteves Cardoso no Independente.) De San Francisco a Lisboa

com escala em Londres são muitas horas de avião. Horários. Sono.

Desculpa-se três vezes durante a entrevista. A tal famosa e polémica

entrevista que eu tive a honra duvidosa de ser o único a fazer.

Cena 6.

A tal famosa e polémica entrevista que eu tive a honra duvidosa de ser

o único a fazer dura o tempo da viagem de BMW (sem escolta) entre o

Marquês de Pombal e o aeroporto, numa pequenina balda aos compromissos

contratuais pois afinal estamos em Portugal. Nos compromissos não havia

entrevista alguma. São vinte minutos mal medidos. Nicholas Negroponte

não olha uma única vez pela janela, como seria de esperar. é como se a

paisagem atómica enfadasse O Ser Digital. (Será que me vai acontecer o

mesmo, à medida que me torno um Ser Digital? Ufa, espero bem que não).

Os travões não chiam mas param o carrito à porta das Partidas da

Portela. Desligo o gravador com um caloroso e vagamente insultuoso «Well, our time is over». O homem nada diz. Mãos apertam-se. Prefiro atribuir ao sono o total desinteresse das coisas terrenas evidenciado por Nicholas Negroponte

durante as horas (poucas) que o tive debaixo de olho. Pensar noutros

motivos é doloroso. Enquanto a mala do carrito se abre para tirar o

saco das camisas, onde repousa o seu Mac e as famosas baterias

suplementares, pergunto-lhe: «foi a sua primeira vez em Portugal?» «Não». Fico na mesma. O avião vai partir com os átomos de Nicholas Negroponte. Ficamos com a sua (omni)presença digital, a vermelho nestas páginas nos «browsers» competentes.

Cena 7.

Há uma palavra única para englobar a amálgama de sentimentos que acolhi

com dificuldade nesta quarta feira famosa e polémica. O meu encontro

com Nicholas Negroponte foi pungente.

Lisboa, na quinta feira a seguir.

Paulo Querido