Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

28 de dezembro de 2007

Do LSD ao BCP: uma verdade (segundo João Miranda) e outra

Tiago Barbosa Ribeiro está convencido que Carlos Santos Ferreira e Armando Vara foram escolhidos pelo mercado“, diz (*) João Miranda, que por sua vez se manifesta convencido da impossibilidade do mercado escolher (um facto absolutamente extraordinário, quiçá irrepetível): “mas isso só seria possível se existisse liberdade no sector bancário português. A verdade” — sustenhamos a respiração — “é que as escolhas dos accionistas foram condicionadas ao que o Estado lhes impôs.

É da prosa menos cuidada que tenho lido a João Miranda. “Condicionadas” ao que foi “imposto”, é um bocado arrevesado. Mas não me detenho nesses pormenores, que são facilmente levados para o lado dos “ataques”, e vou quedar-me pela argumentação. A verdade segundo João Miranda está fundamentada em quatro pontos que vou reproduzir e comentar.

1. Para se fazer negócios em grande escala em Portugal é necessário ter a benção do Estado. Grande parte dos accionistas do BCP têm outros negócios e estão condicionados por essa via.

João Miranda deve estar a referir-se aos pequenos accionistas, ou detentores de participações não qualificadas, para usar a terminologia própria. Só isso explica a frase, pois não estou em crer que João Miranda se tenha socorrido da expressão “é necessário ter a benção do Estado” por dá cá aquela palha. A frase, aliás, é do extraordinário rigor a que JM nos habituou, separando delicadamente os negócios de “grande escala”, que são benzidos um a um, dos negócios de pequena escala, aprovados a olho com uma oração comum.

A grande parte dos accionistas com participações qualificadas (ler: os que contam em termos das escolhas para o board) não parece porém susceptível de condicionamento pelo Estado. Ao olharmos para a estrutura accionista do Millenium bcp, não por este Estado português em todo o caso.

Benção do Estado?

Eureko, JP Morgan, Sabadell, Grupo CGD, Fundo de Pensões BCP, BPP e Sogema nem sabem quem é o PM e têm horror aos negócios em grande escala (ou em qualquer escala, de resto): são instituições financeiras que compram e vendem dinheiro. “Liberdade no sector bancário português” é, para eles, um título qualquer num jornal qualquer, falem-lhes de coisas sérias.

Restam os grupos Teixeira Duarte e José de Mello, que são condicionados pelo Estado, cliente sem o qual não seriam capazes de existir. Tão condicionados são que mandam na economia do país e põem e dispõem ministros e secretários de Estado, não vá aparecer outro maluco a privatizar esta coisa toda.

E resta Joe Berardo. Erm… Não é, estou convicto, o caso de João Miranda, mas eu preciso de, no mínimo, LSD-25 para ver em Berardo um dependente das benzeduras estatais…

2. O BCP atingiu os limites do seu modelo de crescimento e de governação. A venda a um grupo estrangeiro seria provavelmente a melhor opção para os accionistas. Mas essa opção depende da autorização do Estado.

Não há a mínima evidência de que o Millenium tenha atingido qualquer espécie de limite — excepto o limte da paciência dos seus accionistas. Pressupor isso é aceitar um limite ao crescimento do capital — o que, estou certo, será a última coisa que Miranda pretende. A crise do BCP tem mais de um ano e nada tem a ver com limites de modelo, de crescimento ou de governação — embora esteja relacionada com a governação. Ou desgovernação, melhor será dizer.

Em qualquer dos casos, a venda de participações a um grupo estrangeiro (ou a qualquer comprador) não carece da autorização do Estado, excepto se as participações forem do Estado (que controla directas ou indirectamente menos capital do BCP que, por exemplo, Berardo — isto se fiz bem a contas).

3. Os accionistas do BCP tinham uma opção não política para a liderança do BCP. Essa opção foi vetada pelo ministro das finanças (socialista) e pelo presidente do Banco de Portugal (socialista). Há três características destes vetos que devem ser tidas em conta:

a) denotam excesso de zelo no presente ou incompetência no passado.

b) condenam dezenas de gestores sem julgamento.

c) eliminam todas as alternativas a Carlos Santos Ferreira e Armando Vara.

Eu olho para a JP Morgan e para Manuel Pinho, depois para Vitor Constâncio e para Joe Berardo — e fico tolhido sem saber o que dizer. Nunca esperei… Fico muito desiludido com Berardo, a JP Morgan, a Fortis, o BPI, a Sabadell, não sei… Tinham uma opção melhor para a liderança do BCP e o mercado não soube, foram primeiro ao beija-mão…

Acresce que Constâncio deu corda, corda, corda — a regulação interviu já para além do tempo regulamentar. O que significa que os accionistas do BCP só se podem queixar de si próprios neste jogo, nunca do árbitro, benevolente e de olhos fechados às piores caneladas durante todo o jogo.

4. Os accionistas não escolhem Carlos Santos Ferreira e Armando Vara pelas suas capacidades de gestão numa economia de mercado. Escolhem-nos (se os escolherem) pelas suas ligações políticas pelo simples facto que num mercado condicionado as ligações políticas são mais importantes que as qualidades de gestão.

A dúvida é legítima e é, sem sombra dela, um recomendável exercício de cidadania!

A verdade — não a de João Miranda, bem entendido, mas a minha e, suspeito, a de Tiago Barbosa Ribeiro & outros — é que os accionistas escolhem o que acham mais indicado para fazer render os seus investimentos, sem ligarem a mínima ao que dizem os compêndios, os retóricos, os teóricos e os anti-teóricos e mesmo eu, perdoe-se-lhes a desfaçatez. (Compreensível no actual quadro económico global: vivemos uma situação sem precedentes, pelo que os compêndios e os economistas, mesmo os melhores, são pouca ajuda, ou nenhuma, como recentemente recordou Mira Amaral.)

O factor humano (aqui referido como “política” por João Miranda) é um instrumento de gestão que, em certos casos — nomeadamente cenários de crise de valores e de crença nos dirigentes, como o cenário que vivem os accionistas do BCP — ganha um peso maior que noutras épocas em que é mais “fácil”, por assim dizer, movimentar o dinheiro de uma coluna para a outra sem ter de prestar atenção alguma a factores em geral desprezíveis, como sejam os clientes e a sociedade em que têm o péssimo hábito de se organizar.

Compreender isto e agir em conformidade será sempre uma lição de inteligência — embora eu creia, na minha humilde opinião, que não chegou a ser o caso. Foi mais comezinho (abaixo).

É por isso uma ilusão pensar que foi o mercado que escolheu Carlos Santos Ferreira e Armando Vara. A escolha destes senhores resulta da eliminação das restantes opções e das suas qualidades políticas.

Não é o mercado que vai votar: são os accionistas qualificados. Estes votam em função da realidade que rodeia o seu investimento, usando os conhecimentos empíricos para reforçar a melhor escolha. A melhor escolha era a de Carlos Santos Ferreira — e eu, que não sou o mercado nem um accionista qualificado (ou mesmo desqualificado), entendo facilmente porquê.

Não sendo do céu que caem os presidentes dos bancos, não os podendo alugar no pronto-a-presidir da esquina, não tendo “capacidade persuasiva” para importar cérebro de obra mais qualificado e sendo totalmente desaconselhado recorrer à prata da casa, por excelentíssima que seja a do Millenium bcp, é preciso olhar em redor.

Ir ao mercado. À concorrência.

Olhando em redor ninguém viu, ou se viu não se chibou nestes meses todos, melhor que o homem que deu extraordinários resultados à CGD, liderando uma equipa que reúne a nata disponível, de que é figura de proa o ex-director geral dos impostos (muito portuguesmente, olhámos para o que achámos “pior”, Vara, sem outro fundamento que não a desconfiança da sua filiação política, e não para o que é melhor, as provas de Macedo).

Penso que os accionistas qualificados (e também os desqualificados) estão por esta altura a suspirar de alívio. Mais Berardo, menos Ulrich, mais negociação por lugares, menos recompensas indirectas, Santos Ferreira é — do ponto de vista deles — a melhor escolha para proteger os respectivos investimentos, fazer regressar a paz e salvar a imagem do maior banco privado português. Essa é que é a verdade.

(* em OPA do PS ao BCP III)