Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

3 de janeiro de 2005

Do desejo e da tranquilidade

Conduzia absorto entre as luzes do tráfego. O negrume novo da noite despontante era retardado, numa luta precária, pelos candeeiros da Ponte entre as duas margens, a errada — onde fora levar Cristina no dia da retoma das aulas — e a certa, a Sul, a deles. Em cada hectómetro de macadame Manuel deixava para trás os pensamentos antigos, substituídos com vantagem pelas vibrações de novo amor.

«Que fizeste tu para mereceres ser amado?»

A pergunta antiga voltou como um fantasma. Manuel não sabia a resposta. Sabia simplesmente que a pergunta era descabida; o amor não é um julgamento – prévio ou posterior – nem um prémio por bom comportamento.

«Essa visão judaico-cristã do amor como prémio de bondade é o azar da tua vida, foi por ela que não soubeste amar-me. É a tua traição pessoal. É a tua garantia para a infelicidade que insistes em fazer o teu lar.»

Esta resposta malévola, não a disse na altura certa à pessoa certa. Como era (mau) hábito nele, só lhe vinham as respostas muito tempo depois – quando era demasiado tarde. Fez o que podia com o pensamento: olhou uma clareira remota no horizonte, entre duas nuvens que filtravam o último suspiro dourado, embrulhou-o numa derradeira embalagem de tristeza e — sem atar a fita — arremessou o pacote pela clareira, para cair do outro lado do oceano.

Ana é uma mulher mais dada ao espírito ruminante, circular, que à amplitude da natureza pelo que não saberia o caminho para o outro lado do oceano.

À sua frente o trânsito melhorou e a sua disposição seguiu o verde do semáforo. Ou teria sido vice-versa, a luz mudou vergada ao seu estado de espírito? Não ficou registo da verdade do momento porque, desembaraçado de tal minudência ocupacional, Manuel fitava já o novo destino à sua frente, à medida que os metros eram engolidos e ficava mais próximo da margem certa.

Quando virou para Almada piscou o olho ao cruzamento. Escreveu na memória o sms a enviar a Cristina para lhe alegrar a saída da aula de mestrado. Dizia o seguinte (devidamente traduzido para Português): na ausência de ti, o desejo que me queima é inversamente proporcional à tranquilidade que me preenche a espera, meu amor.