Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

1 de junho de 2005

Do que é fundamental

Foi uma semana de difícil escolha. Os noticiários estão prenhes de temas, cada um aparentemente mais importante, fundamental diria, que o anterior.

A primeira escolha seria, necessariamente, a problemática do referendo à carta europeia. Vasco Pulido Valente, na sua crónica no Público, irritou supinamente. Do alto da sua sobranceria, que é a mesma sobranceria que eu admiro e me faz devorá-lo, é bom que fique claro, regurgitou que não há “debate” e que devia haver “debate” sobre a constituição Europeia. Numa “crónica” cheia de “aspas” (que gozadamente imito hoje) VPV desdenhou o intenso debate, o nunca antes visto debate sobre um mesmo tema, à excepção dos erros da arbitragem no futebol, que jamais vi no espaço público português. Os cronistas de jornais, e VPV, têm o péssimo hábito de se fecharem nas suas realidades. Poucos, raros, deixam o seu casulo, onde se lêem e relêem uns aos outros e se convencem que a opinião pública é a opinião dos cronistas publicados que com eles concordam, para averiguar o que sente e pensa e discute o povo real.

O povo real não é aquele que as despudoradas televisões mostram nos “directos”, espetando a pretexto de um tema “quente” um microfone na cara de um incauto, quanto mais tonto parecer melhor para o efeito dramático que cada repórter se esfalfa por conseguir para a “sua” peça.

Se lhe espetarem, caro leitor, um microfone no meio da rua, com uma câmara apontada, e lhe perguntarem se leu o texto da Constituição, ou o que pensa dos políticos, o que acha que responde? Que figura acha que vai fazer? Tem a certeza que dá a sua melhor resposta, pressionado pelo olho de boi, pelo microfone segurado pela ansiosa, expectante, vagamente trocista e bem parecida repórter, pela vaidade dos seus 15 segundos de fama televisiva?

Além de exporem preversamente as fragilidades humanas como a vaidade o o medo do ridículo (que na televisão se confunde com o próprio ridículo), os “directos” de rua não significam rigorosamente nada senão a espuma humana desse mesmo momento. Na melhor das hipóteses, são enfeites.

Ma é nesses directos que, aparentemente, bebem o sentir da populaça os analistas e comentaristas publicados da nossa praça. (E também os políticos, já agora.) Auto-convencidos que de “eles” é que “discutem” e “debatem” a coisa pública e que o povo, na sua santa ignorância, não consegue ver além do penalti controverso e do Carnaval contínuo de Alberto João Jardim, vivem numa redoma opinativa que, a exemplo do que se passa com os políticos, os afasta irredutivelmente do povo.

Em última análise, o “não” dos franceses revela isso mesmo: a enorme distância de sentires entre governados e governantes — incluído neste lote os “governantes” da “opinião pública”. Há uma desconfiança, ia acrescentar recíproca, entre as massas e as elites. Historicamente sempre houve — mas a Democracia era suposto diminuí-la ao longo dos tempos; tal não aconteceu. A despeito do que dizem os indicadores sobre o efeito benéfico da Democracia sobre a qualidade de vida em geral (a melhoria é evidente e comprovada estatisticamente), algo não mudou.

Se VPV e os cronistas dessem maior (alguma?) atenção ao novo espaço “de tertúlia de café” que a web em geral e os blogues em particular aumentaram e potenciaram, reflectindo sobre, emendariam certamente as suas mãozinhas.

Ontem vi um debate (uma chateza, por sinal) na SIC sobre a Constituição e adjacentes. Tenho a convicção de que um só blogue, o Sítio do não, fez bastante mais pelo “debate” e pelo esclarecimento geral do que todo o programa — que por acaso até incluia o autor desse blogue. E não apenas debate e esclarecimento: também informação e conhecimento seguro. [ Podemos presumir que VPV entende, enfastiadamente, que quem não o ler (ou ler os livros que ele lê) não ficará esclarecido, muito menos informado e seguramente laborará nas trevas profundas sobre o assunto. ]

Gostava de ter instrumentos de medida de audiências e, mais que de meras audiências passivas, de participação efectiva, de demonstração de interesse. Suspeito que no último mês os debates televisivos e os espaços nos jornais sobre tal tema tiveram menos audiência que a audiência dos blogues que discutiram e debateram o assunto. Sem instrumentos, é a minha suspeita contra a “deles”.

A audiência global da blogosfera em Portugal rivalizará hoje com a audiência dos jornais e revistas. E se em vez de falarmos da “televisão” assim por alto e nos focássemos em programas, porque cada programa não tem a audiência genérica da respectiva estação mas a sua própria, estou convicto que alguns blogues (teríamos de aplicar aqui a mesma medida) serão mais lidos que tais programas vistos. Repare o leitor que tenho o pudor de evitar enveredar pela análise da qualidade de um meio quente, como a blogosfera, em que cada um é simultaneamente emissor e receptor, contra a qualidade de um meio frio, ditatorial, como a televisão, onde há emissores falantes e receptores mudos.

Mas convicção e água benta, cada um toma a que quer.

O “não” francês, a que se seguirá por estes dias o holandês, representa antes de mais e sobretudo esse fosso entre quem dirige e quem é dirigido. Pessoalmente considero-me um cidadão da Europa e isso de “Portugal” nada me diz, descontada a língua e a história — não acrescento “cultura” porque a minha é mais europeia e até americana do que portuguesa e não me movem instintos de protecção aos “artistas” do burgo. Sou partidário pouco convicto do “sim”, todavia não vejo como um apocalipse a vitória do “não”. Percebo muito bem quem vota “não”. Percebo menos bem quem vota “sim”. Porque poucos votarão “sim” pelas boas razões (que, bem entendido, são as minhas).

A semana teve outros temas de interesse imenso. O défice, pois claro, o défice. O “garganta funda” do Watergate. A reforma de Jardim. A seca. A mãe do bebé afogado em Chaves. O preço do tabaco! Scolari e a selecção com Figo. Sem esquecer o piano man, tema ao qual gostaria de voltar para tentar perceber porque é que nos importamos tanto com um drama distante e recusamos os dramas próximos, com os quais podíamos e devíamos ser solidários [ Solidariedade: um dos mais antigos valores humanos, caído em desgraça na Era Da Concorrência e hoje em desuso ]. Derramar uma mediática lágrima por alguém de quem nunca ouvimos falar e que perdeu a memória é uma atrocidade (bem humana) estimulada pelos noticiários.

Mas confesso-vos: nada disto me parece assim tão fundamental quando comparado com uma notícia daquelas que enchouriçam as secções light dos jornais (no caso, li no Público de hoje, página 50). Um casal britânico revela o segredo do seu casamento de 80 anos — máximo com honra de Guiness, está bem de ver: um copo de uísque e outro de sherry e a palavra desculpa.

O casamento (ou união de facto, ou mera união) longo não é estratégico para a sobrevivência tout court da espécie, convenhamos. Basta que haja união para haver reprodução. Em certas alturas da nossa História foi mais necessário que noutras o bom relacionamento, ou a felicidade se quiserem, no seio familiar — e as figuras paterna e materna são importantes enquanto referências.

Mas um casamento bem sucedido é fundamental para a espécie ao nivel simbólico. Está na base do querer humano. É um exemplo para uma espécie que, ao contrário das demais, evoluiu pelo exemplo (somos a única espécie que segue exemplos além de instintos). Alicerca a confiança no futuro. É um dado tranquilizador e potencia a criatividade (até pela negativa, no sentido de estimular aqueles que não têm essa tranquilidade e a buscam, ou buscam as alternativas possíveis, alguma forma de sucedâneo).

É por isto que, numa semana prenhe de notícias “importantes”, esta me fez reflectir mais profundamente que qualquer outra e considerá-la como a fundamental, a que está além da espuma dos dias e da poeira das décadas. Há que relativizar as questões, sob pena de nos afundarmos na paranóia da existência diária e nos perdermos, exaustos, no remeximento psicanalítico de cada decisão pessoal ou colectiva.

Florence disse que «continuamos a amarmo-nos e isso é o mais importante» O segredo do casamento? «Nunca se deve ter medo de pedir desculpa». Por seu turno Percy, o marido, com a sabedoria que os seus seus 108 anos lhe conferem, acrescentou que o segredo se deve a duas palavras: «Sim, querida».