Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

19 de agosto de 2007

Domínios: o imobiliário da Internet vale 1.500 milhões

O modelo de negócio da DigiPawn.com é ao mesmo tempo antigo e insólito. A actividade de prestamista já existia na Antiguidade Clássica. Mas emprestar dinheiro com base na propriedade de domínios Internet, eis uma ideia rara. E no entanto ela ocorreu a Rick Latona, o americano que começou a sua cadeia de lojas de empréstimo em Lakeland, na Florida, e que em 2004 abriu a primeira loja online. Objectivo: emprestar tendo como garantia um tipo de propriedade intelectual. A DigiPawn.com avança dinheiro depois de avaliar o potencial de um domínio – semanarioexpresso.com, por exemplo, qualificar-se-ia na certa.

O negócio dos domínios Internet – os nomes de domínio como expresso.pt ou wallstreet.com – vale já cerca de 1.500 milhões de euros anuais. Existem mais de 125 milhões de domínios e o número aumenta em ritmo elevado. Só no mês de Julho foram registados 3,62 milhões de novos endereços – mais de 100.000 por dia. Este valor global pecará por defeito: corresponde na prática à gestão corrente do registo e renovação por períodos anuais, com um domínio .com fresquinho a valer pouco menos de sete euros e os domínios de país, como o .pt, a custarem acima dos 20 euros. Os grandes números estão na compra e venda dos melhores domínios – um complexo mercado que se pode comparar ao negócio do imobiliário e onde os termos “investimento” e “especulação” se interligam como o preto e o branco no símbolo do yin-yang. Como neste, há muito investimento em “propriedades” na expectativa da sua valorização. Passiva, sem posterior cuidado, ou activa, através da “construção” que melhore o “terreno”.

Só este ano, já foram transaccionados cinco domínios na casa do milhão de dólares cada e 50 outros acima dos 100.000 dólares, informa o DN Journal, que faz a monitorização desta área. Entre os domínios milionários estão porn.com e seniors.com (ver quadro). Menos impressionante, a segunda linha, com nomes do género de jeans.com ou software.com, apresenta domínios que podem valer 100.000 dólares. A Internet Real Estate Group, com sede em Boston, especializou-se neste “jogo” e pega em domínios desta linha para os tornar em apetecíveis negócios – metendo-lhes conteúdos e anúncios ou produtos para venda, conforme as características.

A Sedo.com, uma empresa alemã bem conhecida no meio, negoceia três milhões de dólares mensalmente nos leilões que promove. É uma espécie de eBay dos domínios (e na eBay.com também se compram e vendem, claro está).

Os analistas prevêem que, a este ritmo, a compra e venda de domínios possa duplicar em dois anos, para os três milhões de euros em 2010. Os melhores nomes atingirão grandes somas nos leilões, mas o negócio não está apenas nessa lotaria. “Faz-se dinheiro em dois carrinhos”, explicou ao International Herald Tribune Bob Parsons, que se tornou o multi-milionário mais visível desta indústria com o popular “registar” godaddy.com. “No carrinho do tráfego que se obtém em cada domínio, e no carrinho da apreciação do seu nome”.

Estima-se que um décimo das pesquisas efectuadas diariamente, ou seja, 40 milhões, ocorra na barra do browser reservada ao endereço, e não nos motores de pesquisa. Daqui decorre um negócio subsidiário que consiste em “parcar” os domínios, isto é, colocar-lhes um directório de actividades relacionadas com o nome e uma bateria de anúncios dentro do contexto. Ao investidor basta carregar num botão, na altura da compra, e o seu novo “terreno” fica logo a render em publicidade. Termos comuns como lavandaria.com (propriedade de um investidor português, João Correia, e à venda por 3.500 euro) podem render umas centenas de visitas diárias, que são depois convertidas em lucro de alguma forma, como o citado “parking”, ou outra.

O “cybersquatting”, uma das primeiras vertentes deste negócio com dez anos de idade, está hoje em queda para alívio de toda a gente (ver caixa), mas a compra de domínios para valorização vai de vento em popa.

Clube dos domínios milionários *

sex.com $12 milhões (2005)

porn.com $9,5 milhões (2007)

business.com $8 milhões (1999)

diamond.com $7,5 milhões (2006)

beer.com $7 milhões (1988)

creditcheck.com $3 milhões (2007)

autos.com $2,2 milhões (2001)

seniors.com $1,8 milhões (2007)

chinese.com $1 milhão (2007)

wallstreet.com $1 milhão (1999)

* valores em dólares

Cybersquatting: como proceder

O nome de um parque temático no Zoológico de Columbus em Powell (Ohio) foi escolhido por votação popular. A 12 de Julho último, dia em que a designação vencedora foi divulgada na imprensa local, o domínio ZoombeziBay.com era registado. Mas não pelos proprietários do parque e da marca ZoombeziBay; um homem, cujo nome não foi divulgado, comprou-o num dos populares registadores de domínios por 8,95 dólares. Como referiu à 10tv.com, uma estação local, era a primeira vez que comprava um domínio e tinha a intenção de o negociar com os responsáveis do Zoológico.

Avisados para a actividade do cybersquatting, os responsáveis recusaram. Estavam dispostos a ficar com o domínio, sim, mas pelo preço de custo. Se não fosse possível, accionariam os mecanismos legais (há uma comissão arbitral para as disputas de nomes). E entretanto registariam um domínio parecido, para a promoção na web.

Três semanas depois, o homem redireccionou o ZoombeziBay.com para o site oficial do Columbus Zoo e numa carta à administração oferece o domínio com a única condição de surgir oficialmente como um donativo seu. Não se conhece, ainda, a resposta – mas os 8,95 dólares foram um mau investimento…