Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

8 de julho de 2006

É apenas um jogo

Com algum espanto, li crónicas absurdas de gente com responsabilidades acerca do fim do Mundial. Crónicas que colam duas realidades distintas, passando a ideia de que eles, o povo, são incapazes de ver a diferença (alienados como se sabe que são as populaças) entre a realidade (a desgraça) económica do país e os sonhos de grandeza que (acham os críticos que) representa o apoio à selecção. Tiradas como «o Portugal que hoje acorda cabisbaixo» (João Morgado Fernandes no Diário de Notícias) deixam o leitor a pensar se vivem efectivamente no mesmo país, leitor e João Morgado Fernandes. É curioso serem os media (e os seus dirigentes) a criticarem o pretenso alheamento do cidadão face ao que “verdadeiramente importa” tendo esses media sistematicamente hipervalorizado o Mundial de futebol no decurso do último mês.

Adiante. Eu não vi em lado algum o «Portugal cabisbaixo». Vi pessoas com um sorriso ainda a bailar nos lábios, a emudecer naturalmente, satisfeitas com o desempenho da representação portuguesa. Vi pessoas discutirem se foi roubado ou não um penalti de uma forma natural (na verdade foi, e daí?) em vez de o usarem para desculpar o fracasso (não houve fracasso). Vi adeptos de sempre do futebol de papo cheio. Vi adeptos de ocasião do futebol contentes com o que passaram.

Ao menos a selecção nacional (e por extensão o Mundial de futebol) cumpriram com o que prometeram: um mês de emoções, paixões e entretenimento de grande qualidade, por preço módico. Tomaram os portugueses que as outras representações nacionais e prometedores ocasionais cumprissem com o profissionalismo de Scolari, Figo e Cia.

O que certamente não ouvi foi falar de “vitórias morais” como no antigamente; nem vi pessoas a usar a alegria de adepto como escape duradouro para as suas responsabilidades profissionais ou de cidadania.

Alguém pode informar Morgado Fernandes que o futebol é só um jogo e que o povo português já sabe disso?