Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

4 de agosto de 2005

E ninguém lhe oferece uma Playstation?

Helena Roseta escreveu um artigo de opinião no Público (link indisponível, reclamações por email para aquele jornal) intitulado Vale tudo?. Foi citado em tudo o que é lado, hoje. Eu também cito pois tenho algo a dizer. É que Manuel Alegre, Roseta e (desconfio) um grande conjunto de indivíduos isolados e calados (ainda a refazerem-se do choque da traição) não estão tão sozinhos quanto pensam.

Roseta diz que a candidatura de Mário Soares gerou «uma enorme perplexidade». Mais atrevidamente, sugere-se (e aqui Roseta não está sozinha) que o tema fracturou o Partido Socialista mais ou menos ao meio.

A confimar-se a candidatura de Soares, confirmar-se-á no mesmo instante a vocação de Mário Soares para sapo, um sapo gordo, velho e crescentemente enfatuado, e a vocação da esquerda portuguesa, socialistas incluídos, para a infantil doença de engolir sapos sem sequer esquartejar os bichos.

Mas — e Soares avança mesmo?

Temo bem que sim. O homem tem uma relação doentia com o poder. Ele simplesmente adora ser o “rei”, o centro das atenções, o manipulador, o bajulado. Independentemente das suas ideias (algumas das quais, como o seu primário anti-totalitarismo, foram úteis a Portugal nos anos excessivos da Revolução), Soares é um animal da política. O problema com Soares é o problema de qualquer animal: o que é bom para ele não é forçosamente bom para o meio em que habita, pense ele o que pensar.

A função de Soares vir a jogo é interpretada de duas formas. Uma: enquanto serviço prestado ao PS num momento difícil — o que é para rir pois historicamente o PS existiu para servir Soares e não o contrário, sendo ilegítimo admitir que algo tenha mudado. Neste delírio interpretativo, a que aderiram alguns cronistas sem outra inspiração, o Governo é o grande beneficiado pois a candidatura de Soares “tapa” os problemas do executivo ao ocupar, com o estrondo que habitualmente caracteriza a forma de Mário Soares actuar em público, o espaço mediático. Uma (quase certa) derrota seria a derrota de Soares e não do partido nem do governo. E mesmo nas pobres autárquicas os resultados tornaram-se pouco menos que irrelevantes. Respira Sócrates de alívio.

Segunda forma: em vez de bocejar nos programas de televisão e arrastar-se pelas cadeiras da sua fundação, Soares vi uma oportunidade de regressar à arena de que tanto gosta.

Acredito nesta segunda via. Como ninguém na esquerda tem tomates para dizer não a Mário Soares, e como a política de vistas curtas que é hoje característica obrigatória dos governantes faz Sócrates optar pelo mal (para ele) menor do mínimo de mossa na sua imagem (que Soares lhe garante em qualquer cenário), Portugal enfrenta um problema inesperado e indesejado.

Cito Roseta: «há muita gente, de todas as gerações, que gostaria de intervir politicamente e não se revê no manobrismo partidário. Isto está a ficar demasiado afunilado».

E está. Pelo que faço uma sugestão e um apelo.

Sugiro que nos quotizemos para oferecer a Mário Soares uma Playstation e o “Political SimCity 3″, a ver se desampara a loja aos portugueses. E apelo aos portugueses que ainda acham a dignidade um valor, para que opinem, exijam, demandem, argumentem, peçam a Alegre e a Cavaco que travem o combate da dignidade nas próximas presidenciais.